Younger Warfare- Capítulo 4: Uprising
Após algum tempo, já estavam todos a dormir. Até conseguia ouvir os grilos do lado de fora da base. Pus o meu plano em prática e saí da cama devagarinho, sem alertar ninguém, no escuro dos dormitórios, apenas com as luzes dos corredores (Das poucas luzes eléctricas que a base tinha) acesas. Consegui orientar-me até ao corredor e logo segui em direcção ao refeitório. Ao chegar, ao refeitório, e já pronto a entrar na cozinha, começo a ouvir passos a dirigirem-se para o refeitório. Eu estava completamente assustado e não sabia para onde ir. No desespero total, decidi descobrir se o que os videojogos me tinham ensinado era verdade e, como a luz vinda do corredor não era suficiente para iluminar totalmente o refeitório, escondi-me em um dos cantos do refeitório próximo da porta para a cozinha. Porquê? Porque pelo facto de haver um enorme pilar por ali, era criada uma sombra directamente para aquele canto, onde se eu estivesse ali bem encostado, pelo menos para o guarda que vinha, fiquei praticamente invisível.
Obrigado, San Andreas e Manhunt, os videojogos onde aprendi isso!
Enquanto eu ficava escondido a observar o guarda, não uma criança e sim um adulto, notei que ele abriu a porta da cozinha e entrou no seu interior. Escondi-me atrás da porta no lado do refeitório, e observei. O guarda de imediato acendeu a luz da cozinha no interruptor e viu a Bianca encostada a uma bancada, á minha espera. Avançou para ela e começou a berrar e a ameaçá-la com os seus punhos. Ela tentou fugir, respondendo qualquer coisa como “No, no, no…” às coisas incompreensíveis que o homem dizia. O homem aproximava-se dela ainda mais e agarrou-a, empurrando-a contra a parede. Não entendi se ele queria violá-la ou espancá-la, mas de uma maneira ou outra aproveitei-me do facto de que ele não tinha notado na minha presença.
E comecei precisamente naquele momento por libertar a minha raiva.
A minha raiva por tudo isto.
A minha vida tinha chegado a um ponto ridículo. E estava na hora de começar a tratar da saúde de quem a levou a esse ponto.
Mal eu sabia que esta mera maneira de libertar a raiva ia ser apenas o começo.
Furioso, invadi a cozinha enquanto o soldado empurrava a Bianca contra a parede e apanhei o primeiro objecto que me apareceu pela frente. Era um rolo da massa! Sim, eles tinham um rolo de massa! Não faço a menor ideia para quê, se só serviam sopa, peixe e pão naquela base, mas serviu no momento.
Peguei nele e corri em direcção ao soldado… E quando ele olhou para trás, obviamente viu-me a vir na sua direcção, mas já era tarde. Levou com uma bela “rolada” na cara. Não posso ter a certeza, mas dado a raiva que tinha e a força que usei, estou muito certo que devo-lhe ter, pelo menos, rachado o crânio. Dei-lhe com tanta força que ele imediatamente caiu no chão, com a cara toda lixada e cheia de sangue.
A Bianca olhou para mim e olhamo-nos por um breve momento. Mais algum curtíssimo período de tempo de olhares frios, com a diferença que aqui foi ela a primeira a falar:
– Não precisava disso, eu já estava pronta caso esse gajo viesse.
E mostrou-me uma enorme faca (Sim, uma faca de cozinha, mas uma daquelas enormes que se usa para cortar bois ao meio) que tinha ocultado.
– Bom, agora está tudo bem… – Disse eu.
– Shhhh, desliga as luzes e segue-me!
Desliguei a luz.
– Agora fica quieto e esconde-te do lado da porta…
Fomos, no meio do escuro, cada um para um lado da porta da cozinha, eu no direito e ela no esquerdo. Nesse momento, começam-se a ouvir montes de passos de guardas. O ruído e os gritos do soldado a ser morto despertaram a atenção geral dos dormitórios… E claro, depois disto, da base inteira. Entrou um soldado, armado com uma Makarov (Uma daquelas velhas “pistolinhas” Russas), pelo escuro adentro. Apenas vendo as silhuetas formadas pela luz que vinha reflectida do corredor, a Bianca avançou para as costas dele e de uma maneira simples e efectiva espetou-lhe a faca nas costas, matando-o e fazendo a Makarov cair no chão. Enquanto já vinham pelo corredor mais outros dois guardas também armados com Makarovs, ela passou-me a Makarov que estava no chão, escondeu-se atrás do balcão e disse-me:
– Tu é que és o“engenheiro” de armas! Acaba tu com eles!
– O quê? Esfaqueaste um gajo a sangue frio e não consegues carregar num gatilho?
– Prefiro deixar essa parte para alguém com mais experiência! Agora dá-lhes!
Saindo de cobertura, atirei-me da porta da cozinha para trás do pilar do refeitório. Os guardas, ao verem-me, imediatamente começam a disparar, errando os tiros. Felizmente eram “ceguetas”, pensei… Enquanto um continuava a disparar contra o pilar o outro aproximou-se ameaçador a correr para ver se me apanhava desprevenido, mas assim que o vi, antes que ele pudesse fazer pontaria, apontei-lhe eu a minha Makarov, premi o gatilho e disparei. Só ouvi “bam!” Atingi-o em cheio no peito, fazendo uma enorme mancha de sangue. Enquanto isso, o outro provavelmente ficou sem balas de tanto acertar no pilar para me assustar e já batia em retirada. Apercebendo-me disso saí de cobertura, apontei-lhe a Makarov e dei-lhe um tiro que não faço a menor ideia onde o atingiu, mas foi o suficiente para o fazer ficar deitado sobre uma poça de sangue. Parecia um videojogo na minha cabeça. Nenhum dos meus inimigos parecia real. Pelo menos sou bom em alguma coisa.
– Podes sair daí, vamos – Disse eu á Bianca. Ela saiu de trás do balcão a segurar na faca mais ou menos como o Anthony Perkins no Psycho. Estava, embora não vou admitir, querida por um lado (Ahhh, uma menina a segurar uma faca como uma psicopata! Que linda!) por outro lado estava assustadora. Ao atravessarmos o refeitório para irmos para o corredor, perguntei-lhe:
– Uma faca? Nunca ouviste dizer para não levar uma faca para um tiroteio? Se eu fosse a ti apanhava uma dessas Makarovs!
– Bem, não há nada como variar…
Ela guardou a faca e apanhou a Makarov que tinha caído ao seu lado. Claro que aquele tiroteio já colocara em alerta toda a base. Já se começavam a ouvir mais soldados a vir. Nos outros dormitórios já se começavam a ouvir crianças a acordar e agitação geral mas eu queria era precisamente ir ao NOSSO dormitório para tentar salvar algumas vidas antes da base inteira entrar em uma guerra colossal.
– Então, qual é o plano? – Pergunta-me a Bianca – Simplesmente metemo-nos num jipe e piramo-nos daqui?
– Calma! Isso vem depois! Agora tenho uma coisa mais importante para fazer! Vem comigo!
Entrámos no dormitório, onde estavam todos assustados, uns aos berros e outros a esconderem-se debaixo dos lençóis como se tudo fosse apenas um pesadelo. Fechei a porta, e enquanto a Bianca barricava-a com um armário, chamei o Jawaad:
– JAWAAD! DIZ A ESTES IDIOTAS QUE SE METAM EM ORDEM e diz-lhes o que eu te vou dizer!
Jawaad berrou para que todos ficassem quietos, não com grande eficiência, mas só o suficiente.
– Oiçam! -Disse eu, virado para eles – Vocês não estão a lutar por rigorosamente nada! Estão a morrer pelas causas mais ridículas de sempre e a criarem devoções falsas por coisas inexistentes! É isto que vocês querem? Viverem sem terem a certeza de que verão mais uma vez o nascer do sol?
Jawaad repetiu as minhas palavras para eles. Continuei:
– Eu sei que isto pode soar impossível para vocês, mas lá fora existe uma vida de oportunidades! Existem sentimentos! Existe uma vida sem medos e receios! Uma vida… Onde vocês SÃO LIVRES em vez de terem que lutar por uma “liberdade” que nunca vos será servida! Então? Querem continuar a morrer ou querem ao menos tentar sair daqui para encontrarem essa outra vida?
Jawaad, após repetir as minhas palavras, uns ou outros contestaram umas cosias quais queres, que o Jawaad me teve o prazer de “traduzir”:
– E então, se fôssemos fazer uma batalha e fugir daqui, onde conseguimos munições para as nossas armas?
– Espera aí…
Tirei a minha Makarov do bolso e espetei um tiro no meio do cadeado de correntes que estava em volta das portas do roupeiro que tinha usado para fazer a barricada. Assim que abri as portas do roupeiro, todos viram o que estava no seu interior: Montes de balas e carregadores cheios para as mais diversas armas, desde clipes para as Makarovs até montes de magazines para as AKs.
– Levem tudo o que puderem! – Dizia eu, enquanto ia para ao pé da minha cama para ir buscar a minha AK-47 – Agora vamos, camaradas! Vamos espalhar o inferno e vingarmo-nos destes filhos da p***! Quem está comigo?
É… Infelizmente a realidade não é como aparece no filme “Avatar”, onde basta dizer coisas motivadoras a um bando de primitivos tribais para eles imediatamente passam a seguir-te. Eu podia ter toda a razão… Mas quando o Jawaad lhes repetiu a mensagem final, e eu esperava ver todos a levantarem as suas AKs no ar e a gritar “Huya!”, na verdade apenas se ouviram um ou outro a reclamar. O Jawaad virou-se para mim e disse:
– Eles não querem ir. Isto é a casa deles. E também a minha. Lamento, mano.
Já conseguia ouvir os soldados do outro lado a tentar arrombar a ponta do dormitório. Felizmente era de metal, mas mesmo assim eles estavam quase a conseguir abrir. Enfiei a minha magazine na AK, guardei mais algumas mags nos bolsos e meti alguns carregadores para a Makarov caso eu necessitasse de uma “arma de apoio”.A Bianca pegou logo em um monte de carregadores de Makarov e guardou-os, naquele momento onde todos olhavam para nós enquanto estávamos praticamente a pilhar o armário das munições. Depois de estarmos prontos, e prestes a abrir a porta á Scarface para enfrentar quem tivesse lá fora á nossa espera ou morrer a tentar, recuei um pouco e olhei atrás para eles, que mesmo decididos, deu para ver que ainda estavam a pensar no que eu dissera…
– É para isto que vieram ao mundo? Para seguirem ordens de estas pessoas… podres? Ou, como se diz em um inglês estiloso e com mais sentido que vocês não conseguem falar…“Rotten people”?
Sem dizer mais nada, tirei o armário da frente e chutei a porta sem tem piedade ou medo do que tivesse no outro lado. Comecei a disparar assim que a porta se abriu. A disparar para todo o corredor. Não era que fosse completamente á toa, sem grande surpresa estavam lá fora soldados adultos prontos e armados com BARs e Makarovs… Mas nem isso foi suficiente para parar a minha raiva, que se exprimia nos tiros a voarem para todas as direcções de tudo o que se metia no meu caminho. Não estava a ver o que estava a matar, simplesmente carregava no gatilho e fazia um spray por todo o lado no corredor. Já a Bianca foi mais táctica: Ficava atrás, a espreitar pela mira da Makarov para ver quais inimigos eu falhava e ela atingia. Após gastar uma magazine inteira e ela um clip inteiro, limpei o corredor de inimigos. Digo, não que estivesse precisamente “limpo”,com as paredes, antes brancas, agora “redecoradas” com sangue e buracos de balas, mas ao menos eles “ficaram limpos”. Fizemos reload. Ia-mos a prosseguir pelo corredor, com os nossos olhos focados na mira. Era curioso… Depois deste tiroteio para sair do dormitório, agora parecia que do nada estava tudo silencioso, sem aparentemente ninguém por perto. Claro que eu não confiava nesse silêncio. Foi no meio desta ausência de som aterradora que a Bianca, ao olhar por uma janela, gritou:
– BAIXA-TE!
Imediatamente atirámo-nos ao chão, enquanto montes de tiros vinham da janela. Lá de fora, estavam a caminhar montes de soldados, tanto crianças como adultos, em direcção aos dormitórios. As balas, vinda do exterior, batiam na parede e faziam ricochete por todo o corredor, dando em uma explosão de balas a voar por todos os lados.
– Apanha a BAR!- Gritei eu á Bianca.
– O que raios é a “bar”?!
– A Browining Automatic Rifle!
Ela olhou para mim meio á toa, ainda sem perceber o que era uma Browning. Tive que “refinar”:
– UMA DESSAS ARMAS GRANDES AO PÉ DAQUELE GAJO ALI MORTO! – E apontei para a BAR que estava ao pé do cadáver de um dos que tinha sido morto ao sairmos do dormitório. Ela, agachada no meio da confusão de balas a voarem por todo o lado, apanhou a BAR, segurou nela e pôs-se a disparar pela janela para o exterior. Enquanto ela ficava a disparar para lá para fora, fui caminhando, praticamente a rastejar pelo chão, para evitar os tiros, até ao fim do corredor, onde ia dar a outro corredor (Este já sem luz) e esse corredor onde, supostamente, ia dar á garagem da base.
– Merda! Bazooka!- Grita-me a Bianca do nada.
Levantei-me e vi um míssil, seguido de um rasto flamejante, a vir na nossa direcção. A nossa reacção foi imediatamente correr para o outro corredor sem luz, enquanto o míssil atingira o corredor onde tínhamos estado. A explosão não foi lá grande coisa, mas quando virei para trás apercebi-me que foi o suficiente para pegar fogo ao corredor dos dormitórios. Prontos, eu com a AK e ela com a BAR, fomos caminhando pelo corredor (Este que felizmente não tinha janelas) até ao fim, para irmos á garagem… Até notarmos na porta á nossa esquerda.
– Espera, Bianca! Lembras-te deste lugar? Se não me engano, atrás desta porta está a“sala de reuniões” onde fomos julgados por aquele velho estúpido!
– Sim, acho que também era aí… E depois? Vamos lá, temos que chegar logo á garagem antes que venham mais!
– Não! Podem vir mais soldados pela sala de reuniões…
– Ok, construímos outra barricada, depressa! Arrasta aquele sofá…
– … E pode ser que indo pela sala de reuniões a gente encontre o gajo e lhe possamos dar o troco.
– O quê?
– Ele insultou-te. Não sabia que eras assim tão boazinha a aceitar ofensas…
– Quando a ofensa vêm de um gajo que está defendido por um exército enorme, provavelmente ele mesmo também está armado e tenho coisas mais importantes para fazer, como fugir daqui a tempo… Obrigado, mas prefiro que os outros idiotas me ofendam.
– Fica aqui se quiseres, mas caso ele esteja cá eu quero ter uma conversinha com ele.
Sem ouvir o que mais ela pudesse argumentar, abri um pouco a porta. Estava na sala de conferências montado um rádio (Não um rádio super moderno, e sim um daqueles rádios dos anos 40 que os Aliados usavam para comunicar com as bases, mais ou menos como no Allo Allo) e o tipo encontrava-se sentado em um banco, a falar para o microfone do rádio, provavelmente pela primeira vez a falar sem ser não a gritar, mas sim notavelmente em desespero. Não percebi se era desespero deste enorme tiroteio provocado por dois “meros pirralhos” ou se estava-se a passar qualquer outra coisa, mas certamente ele estava a pedir ajuda a alguém pela rádio. Ao lado dele estava sentado o Thulani, com cara de preocupado, atento no outro. Há, logo os dois mesmo a jeito.
Qual foi a primeira coisa que eu fiz? Dei uma de SWAT e chutei a porta a gritar “Freeze! Put your hands in the air”. Ambos ao verem-me, e em seguida á Bianca que entrou ao meu lado com a BAR apontada para eles, levantaram-se e puseram as mãos no ar. E adivinhem o que estava na sala: um arsenal de M4A1s e M1911s, juntamente com um monte de granadas. As armas que eu mesmo capturei, estavam ali apenas para a mera defesa pessoal deles. Sim, era para ali onde tinha ido todo o equipamento da Colt.
– So… A riot. Very clever coming from you, boy – Disse-me o homem.
– What? Did you really thought I was gonna accept your orders and the orders of your idiot friend over here?-Pergunto eu apontando para o Thulani.
– Oh boy, I know you would not.
– FOR THE LAST TIME SINCE WE LAST MET… MY NAME IS NOT BOY! IT IS FELIX, YOU F***** PRICK! Get the name right or I will blow your f**** head!
– Would it matter? You are going to do it anyways, won’t you? You are so furious and so angry that you just can’t stop the rage inside you. You WILL kill me, no matter what I say. But why would I blame you? That means we succeeded. When you got here, you were, like, how do they say in American? Oh, yeah, a pussy! Exactly that! You were afraid. You were nothing. But it looks like we succeeded and turned you into a killing machine. You are only going to kill us both because we made you able do it, isn’t that true? Oh, and by what I’ve heard out there, it looks like your“wife” over here learned the same! Hah! The lesson gets passed from bitch to bitch! So? Will you show me what we’ve teached you and kill me? Proving us how useful we were?
Enquanto ele falava, o Thulani foi-se chegando atrás discretamente para apanhar uma M4A1 que estava em cima da mesa, mas no exacto momento em que a agarrou, a Bianca agiu da maneira mais eficaz: Matou-os aos dois imediatamente com uma rajada de balas em um piscar de olhos. Tal como se diria em Pokémon: “É super efectivo!”.
– Boa… –Disse-lhe eu. – Podíamos ter morrido os dois!
Sem me ligar, ela aproximou-se do Thulani, atirou a sua BAR para o chão e agarrou na M4A1, metendo também um ou outro carregador no bolso. Depois olhou para mim. Mais uma vez, um olhar frio, mas por outro lado, surpreendente. Por detrás dos olhos dela conseguia ver um sorriso suspenso. Era um olhar muito mais místico do que propriamente terrorífico. Era como se ambos tivéssemos acabado de apercebermo-nos de algo ao mesmo tempo. E como se ambos tivéssemos a partilhar mais sentimentos do que nós mesmos soubéssemos.
– Vamos? -Disse-me ela, a fazer o cocking na M4.
Enquanto isso, ouve-se uma porta a ser no corredor. Eram mais guardas e soldados que vinham desde o fundo do corredor, armados. Certamente não era seguro continuar a correr o corredor para a garagem enquanto todos estavam a vir por lá. Imediatamente agarrei uma granada, passei-lhe outra e disse:
– Atiramos as granadas ao mesmo tempo aos 3… 2… 1…
Já vinham os inimigos quase a chegar á sala de reuniões, quando tiramos o pino da granada e as mandamos pela porta fora, a rolarem pelo corredor abaixo onde estavam os outros… Acredito que seja escusado descrever o que aconteceu. Mas caso seja necessário algo para referência, acho que basta dizer que cheguei a ver um braço a voar pelo corredor quando aquelas “meninas” explodiram. Saímos pela porta, ela na frente a olhar para um lado e para o outro para ver se não haviam mais inimigos. Ao olhar para o lado onde tinha explodido a granada, devo dizer que adorei a reacção dela:
– Yuck… Que nojo…
Não é que tenha sido á toa, os cadáveres deles estavam praticamente espalmados (Ou bom, pelo menos os pedaços dos cadáveres, claro) contra as paredes e contra o chão. Não eram poças ou “nódoas” de sangue como eu tinha visto até agora, eram verdadeiros borrões de sangue que cobriam as paredes do corredor. Eu e a Bianca seguimos pelo corredor, com a arma apontada sempre em frente para a garagem. Ao chegarmos á porta da garagem, eu mesmo me candidatei:
– Vou á frente para ver se não está ninguém.
– Espera! Eu vou contigo!
– Hã? Desde quando tu queres saber se eu morro ou não?
-Ya, até me importo… Dado que se não fores tu não tenho mais ninguém para confiar no meio disto…
– Ok, então fazemos os dois um breach, pode ser? Chutamos a porta, entramos a apontar as armas com estilo e disparamos para tudo o que mexer-se dentro da garagem?
– Soa bem!
– Vamos lá!
Íamos prestes a arrombar a porta, quando eu disse:
– Espera… Mas tu não me disseste uma vez que não precisavas de ninguém para confiares?
– Tu sabes… Quanto estamos a lutar pela causa e a tentar escapar do mesmo lugar, sou capaz de abrir algumas excepções. Agora chega de blá blá blá, vamos!
Dado que era uma porta dupla, reagimos de maneira efectiva e cada um chutou o seu lado da porta. Entrámos na garagem, com as armas apontadas. Mas nada. Mesmo com as luzes estando desligadas, deu para aperceber-me de que a garagem estava vazia. Wow, durante este tempo fiz mais breaches de portas vazias do que com pessoas lá dentro. Carreguei no sensor que estava ao meu lado para acender a luz e consegui ver a garagem inteira: Era bastante grande, com dois jipes estacionados lado a lado, cada um com metralhadoras no topo, e uma enorme porta que mais parecia a porta de um hangar, felizmente fechada. De resto havia apenas na garagem uma pequena porta traseira que ia dar ao exterior, uma secretária com alguns mapas e esquemas e alguns pedaços de ferro velho e maquinaria velha espalhados, nada mais. Cheguei-me ao pé dos jipes e perguntei:
– Hey, Bianca! Sabes conduzir uma destas cenas?
– Achas? Nem temos idade para tirar carta de condução! Ou vais dizer-me que sabes?
– Bem, eu já joguei alguns jogos de corrida com volante, pedais e mudanças na PS3… Sempre que disseram que o Need for Speed tinha um handlingrealista… Acredito que posso tentar.
– Ok, isto sim, é uma loucura total.
– Pode ser… Mas vez mais alguma maneira de escaparmos? Ao escapamos ou morremos a tentar! Ok, vai-te metendo neste jipe aqui, tu ficas na metralhadora. Eu vou ali ao botão abrir a porta da garagem e volto logo para o jipe para conduzirmos daqui para fora. Prepara-te… Hey, espera aí!
Fui á secretária e abri algumas gavetinhas debaixo dela. Na terceira, encontrei uma bússola e meti-a no bolso.
– Exactamente o que eu preciso!
Enquanto isso, a Bianca começou a remexer por curiosidade em alguns papéis que estavam em cima da mesa. Foi aí que achou um papel em particular interessante.
– Hey, o que é isto?
Olhei para o papel que ela tinha na mão. Era um esquema de uma AA (Anti-Aircraft) Gun, ou seja, basicamente uma Anti-Aérea, daquelas que servia para abater aeronaves. Parecia ser enorme, bastante maior que o tamanho de uma AA gun vulgar, um pouco maior que um tanque.
– Interessante… Mas porque é que eles têm aqui esquemas de uma destas coisas se não têm nenhuma por aqui?
– Sei lá… Hmmm, o que é isto?
Ao lado desse desenho estava uma pasta. Abri a pasta e para minha surpresa estavam lá dentro não só mais designs da AA Gun, como também imagens dela mesma construída!
– Uau! Mas como é que eles escondem uma coisa deste tamanho…
Observando uma redução da planta da base que vinha dentro da pasta, aí sim entendi como eu ainda não tinha visto a AA Gun. Aparentemente a AA gun encontrava-se situada POR DETRÁS dos dormitórios! Depois examinei a pasta com os ficheiros da AA gun. Foi aí em que notei que havia uma capa lá dentro. Uma capa intitulada como“First test” e mais algumas coisas estranhas escritas em baixo que eu não compreendi. Só fiquei mais interessado pelo carimbo enorme que estava estampado na capa: “MISSION SUCESSFUL”.
– Hã? Mas eles realizaram um teste desta AA gun com sucesso? – Perguntei-me a mim mesmo em alto.
– Estás maluco, Félix? Isso é impossível! Até eu, que não percebo nada de armas, sei que uma dessas coisas deve fazer um barulhão dos diabos quando dispara! Batalhas rivaisunderground entre “tribos” ainda está OK, mas não achas que se disparassem uma coisa destas para o céu eram logo detectados?
Foi aí que chegámos á conclusão óbvia. Á coisa mais óbvia de sempre.
O avião da TAAG com a asa cheia de buracos que pareciam “balas de uma pistola gigante”…
A especulação das notícias de o avião ter sido atingido por algo…
O Thulani ficar extremamente preocupado com os Americanos irem investigar o lugar da queda…
E agora descobrimos que a base tinha uma arma anti-aérea guardada.
Bom, acho que tudo isso explica a operação que tínhamos feito de dia. Evidentemente, para testar o novo “brinquedo” deles, o Thulani deu, pelo menos, a ordem para abrir fogo no avião no dia em que caiu o avião e obviamente agora devia estar cheio de medo que os Americanos descobrissem a sua parte nisto tudo. Já tinha pensado nisso antes, mas sempre pensei “Que teoria mais absurda! Como ele faria isso?”.Mas agora que vejo que eles têm uma AA gun… Tudo passou a fazer sentido.
Eu e a Bianca ficámos caladas por um momento.
Depois deu-me um “One of my turns” e do nada empurrei a secretária do avesso para baixo. Em seguida, peguei na pasta, com as coisas lá dentro, e atirei-as contra as paredes.
– FILHOS DA P***! MATARAM OS MEUS AMIGOS!
A Bianca reagira a esta descoberta a dando um enorme “facepalm” e metendo-se com a cabeça descansada sobre os braços em cima do jipe. Virei-me e disse:
– Mudança de planos.
-… O quê?
– Olha na planta, parece haver outro portão ao pé da AA, e ali com um estacionamento. Pode ser que tenha algum jipe lá…
– E então o que estás a sugerir?
– Estás a ver a anti-aérea na planta? Nós caminhamos para…
Do nada, começam-se a ouvir barulhos a virem da porta do corredor. Estavam a arrombar a porta. Peguei na minha AK, passei-lhe a M4 e disse-lhe:
– Rápido! Segue-me!
Saí a correr pela porta das traseiras, com a Bianca atrás de mim. Fomos dar ao outro lado da base, onde não havia quase ninguém a não ser um ou outro tipo a guardar o portão e uns que passavam de um lado para o outro da base, ainda à nossa procura. Havia realmente por lá um jipe parado, e um só. E logo a alguns metros de nós, em cima de uma plataforma montada ao pé de onde estava o jipe, encontrava-se nada mais do que a própria anti-aérea, com algumas “balas”(Pareciam balas de armas comuns, só que pontiagudas e enormes). Felizmente estava bastante escuro, portanto foi bastante simples chegar á anti-aérea sem sermos vistos. Ao chegarmos lá, subi para o acento que ficava na parte traseira do canhão e servia para comandar aquilo. A Bianca sussurrou:
-… Mas o que é que raios tu vais fazer?
– Vou fazer o segundo teste desta AA por eles. Agora mete essa bala no compartimento ai atrás!
– Onde?
– Nesse tubo grande! Enfia a bala aí e fecha esse compartimento!
Ela assim fez. Meteu a bala, fechou aquilo. Em seguida, fiz pontaria para o portão e carreguei numa espécie de “alavanca” que disparava. Foi simples… O portão explodiu totalmente! Tanto o portão como os guardas do portão e grande parte do muro em si em volta foram dizimados! Claro que isso chamou bastante atenção, tanto que quando dei pela conta já vinham aí mais soldados a saírem da base e a começar a disparar para a anti-aérea. Pois, são realmente balinhas de AK-47 que vão destruir aquela cena…
– Óptimo! Mete-me outra!
Ela meteu mais uma daquelas “mega-hiper-balas” e foi tudo para cima dos soldados, como também para uma parte da própria base. Quando dei pela conta, já a base em si estava com a “área administrativa” a cair aos pedaços depois desta. Saí da AA e disse:
– Excelente! Não está mais ninguém! Agora vamos para o jipe! ‘Bora! Rápido!
Corremos o mais depressa que podíamos para o jipe. Porém, quando íamos prestes a entrar… Qual não foi a nossa surpresa quando um bando de soldados surge do meio dos escombros de uma das partes despedaçadas da base e começa a abrir fogo! Literalmente centenas deles! Atirámo-nos para o chão e escondemo-nos atrás de um pequeno muro.
– Merda! -Disse a Bianca – Se nos levantarmos levamos logo com um tiro! O que fazemos?! Temos que chegar ao jipe!
– Se calhar se conseguirmos voltar á AA…
Como por pura e irónica coincidência, nesse mesmo momento surge um míssil vindo de uma bazooka que explode de vez com a AA Gun.
– … Deixa lá! Fogo! Temos que fazer qualquer coisa! Pensa!
– Pensar? Como?! Achas mesmo que agora é o tempo ideal para “pensar”?
Eles disparavam para o muro, que se ia pouco a pouco desfazendo. Estávamos cada vez mais descobertos! Foi provavelmente uma das piores situações que eu tive: Sabíamos que se nos levantássemos para disparar de volta éramos logo mortos, se fugíssemos para onde quer que seja éramos logo mortos e ao mesmo tempo sabíamos que se ficássemos ali parados em breve seríamos mortos!
– Hey…-Disse-me ela – Se calhar conseguimos… Se rastejarmos baixinho… Chegar ao jipe sem eles notarem! Depois pode ser que a gente consiga arrancar!
– É isso ou nada. Vamos!
Abaixados discretamente, fomos rastejando até ao jipe. Devagarinho… Até que no meio disto aparece uma granada a voar para ao pé de nós, para lixar tudo de vez!
Só tínhamos uma escolha para sobreviver da granada: Fugir a correr dali, o que implicava ficarmos expostos. E era levar com a explosão da granada ou levar com os tiros… E claro que preferimos levar os tiros, quando ambos automaticamente corremos para o jipe, a acreditarmos nós, no meio de montes de balas a voar para cá… E a granada ficou para trás e explodiu, felizmente sem nos magoar.
Mas o que ia importar? Nós morremos de uma maneira ou outra pelas balas, certo?
Foi o que eu pensei assim que entrei á pressa no jipe. Até me questionei por um momento:“Como estou a conseguir fazer isto se ESTOU MORTO?!” até eu aperceber-me que estava bem vivo e simplesmente já não vinham mais balas na nossa direcção.
Como um milagre, olho para trás e o que vejo? O Jawaad e os outros, que tinham ficado no dormitório, armados com as AKs, a meterem-se em um enorme tiroteio contra os outros adultos que nos estavam a tentar impedir de escapar. Foi aí que notei em uma enorme explosão ao fundo da base…
E em outra…
Tinha resultado.
Consegui virá-los, ou pelo menos a maioria, contra os seus próprios “donos”. Claro, os adultos estavam muito mais bem armados, mas dado que por cada adulto naquela base existiam para aí 10 crianças… Escusado era dizer quem estava a tomar a vantagem no meio daquela batalha.
Aproveitando-me da confusão gerada por aquele enorme tiroteio que agora felizmente já não era só nosso, e com a Bianca a bordo, meti prego a fundo e acelerei, ainda que a conduzir extremamente mal, pelo enorme buracão no muro onde antes fora o portão, e saí daquele lugar. Pelas estradas entre a selva parti, no jipe, a usar a velha técnica de ir a acelerar pelas estradas rectas e devagarinho pelas curvas, enquanto a batalha épica pela liberdade se travava atrás de nós. O jipe era tão mal feito que nem tinha retrovisores, mas pelo barulho dava para notar que quem quer que seja que estivesse a ganhar a vantagem, estava a massacrar completamente o inimigo.
