Younger Warfare- Capítulo 3: Dias de trabalho

Dia seguinte: Acordar às 9 da manhã para recebermos novas instruções. Seguimos para a “sala de conferências” onde nos sentámos no chão e apareceu Thulani. Obviamente, ele falava na sua estranha língua que eu não compreendia de lado nenhum. Parecia-me até mais calmo do que a maioria das vezes. Assim que ele esticou uma enorme planta desenhada á mão e pendurou-a num quadro, entendi logo: Ele estava a congeminar um plano. Após pegar em uma vara e apontar uma coisa ou outra na planta, fomos mandados de volta aos dormitórios. Inicialmente não entendi porquê, mas assim que os outros começaram a mexer nas armas deles, percebi: Era para irmos buscar as nossas armas. Fui buscar as minhas e alguns“mecos” trouxeram-nos caixas com munições de 7.62 X 39 para metermos no carregador. Meti as balas nos 6 carregadores que me ofereceram (Bastantes carregadores, devo dizer), meti 1 deles na arma (Duh! óbvio) e lá consegui enfiar os outros nos meu bolsos, 3 no direito e 2 no esquerdo. Ao irmos depois dos dormitórios para a saída, aproximei-me do Jawaad e já que ele parecia ser a única pessoa por ali que falava Português, perguntei-lhe:

        – Então,“mano”… O que se passa?

        – Descobriram lá um armazém dos Gewelddadiges a uma beca daqui.

        -Ou seja.. Isso quer dizer que basicamente vamos entrar lá, ver o que há no armazém e irmos embora, certo?

        -Ya, basicamente isso.

        -Ou seja, isso quer dizer que nada de tiroteios, ou mortos, ou nada, certo?

        -Xééé… O Thulani disse-nos que podia haver por lá dois ou três sniper a guardar a cena. Não temos a certeza, portanto não deve ser lá muito pacifista, não.

        Bem, eu tinha ordens para ser o “homem” da frente (“Homem” entre aspas, pois eu certamente não sou uma mulher… Mas não sei se tenho idade para ser chamado de homem, talvez rapaz da frente…), o que significa que se os snipers nos vissem, eu certamente era logo o primeiro a levar um tiro.

        Segui-os para ver onde eles iam. Entrámos para um daqueles camiões velhos, como os da 2ªguerra mundial, isolados com uma espécie de “lençol” para cobrir a parte de trás, como os que se usavam para transportar soldados para o campo de batalha. Fomos para esse camião, enquanto alguns dos outros “soldados” iam para outros iguais. Um adulto obviamente meteu-se no acento do condutor e levou-nos por uma estradinha, não muito aberta, que saía das traseiras da base, para o tal armazém. Pelo caminho, eu quase que me ia metendo a rezar. Porque honestamente, estava com mais medo daquilo do que um gato com medo de água. Ia ter que me enfiar por um armazém, provavelmente guardado por capangas armados… Parecia ser uma maneira fácil e ingloriosa de morrer.

        Qual é o propósito da vida destas pessoas? Morrer apenas para poder investigar?

        O camião parou alguns quilómetros depois. O condutor parou e apontou-me para o lugar da base. Com todos a seguirem-me, caminhei para onde o condutor apontou. Estava cheio de medo. Fui devagarinho entrando pela floresta, até encontrar um enorme descampado onde se via o tal armazém. Não era muito grande, mais ou menos do tamanho de um estábulo de uma quinta. Porém, tinha algumas janelinhas… Janelinhas onde bem podia estar escondido um sniper. Nesse momento pensei: “Que se lixe, se vou morrer ao menos morro com um tiro que é rápido”. Virei-me para trás, fiz-lhes sinal para não fazerem barulho e caminhei, abaixado, para ao pé da porta de entrada do armazém. Felizmente, e surpreendentemente, continuou silêncio total. Nem nenhum tiro com silenciador vindo das janelas ou sequer barulho de alguém a mexer-se lá dentro. Nada. Encostei-me á porta e fiz no melhor estilo de Call of Duty, para descobrir se o que esse jogo me ensinou me deu jeito na vida real: Breach. Chutei a porta e, de arma apontada, entrei no armazém. Olhei para todos os lados, apenas a mexer a cabeça e a arma, com os meus olhos na mira. Olhei um pouco á volta. O armazém não tinha lá dentro ninguém. Fui á porta e disse, não em tom muito alto mas em tom suficientemente alto para eles perceberem, “Venham”, e fiz um gesto com a mão para eles virem. Como não houve nenhum tiroteio ou nada do género, ficou evidente para eles que não estava lá ninguém e eles entraram todos pela porta adentro no armazém.

        O armazém, embora estivesse escuro (Com o interior apenas iluminado pela luz que vinha do exterior pelas janelas), uma coisa deu para ver: Estava cheio de caixas de cartão. As caixas diziam “From USA” e tinham o lógotipo da Colt, uma das principais fabricantes de armamento dos Estados Unidos. Abrimos as caixas e sem grande surpresa, estavam cheias de M4A1s e M1911s. Só armamento topo de gama da Colt. No momento em que eu peguei em uma das M4A1 para a examinar, o Jawaad entra dentro do armazém e diz-me:

        – Deixei ali alguns dos meus tipos a guardar a porta. E agora, pah?

        – Então, agora acho que esses Gewacoisos andam a colaborar com os Americanos. Olha-me para estas armas… É tudo da Colt, obviamente que não são Kalashnikovs como as vossas.

        – Como as nossas, tu quéres dizê?

        – Sim, isso. Mas bem, se eles têm armamento da Colt então só pode significar duas coisas: Ou os Americanos andam-lhes a vender armas ou então estas são roubadas, que cá para mim é o mais provável. Bem, tanto faz. Então, o que devemos fazer…

        Do nada, começam-se a ouvir montes de tiros vindos lá de fora. Um entra a correr cá para dentro e a gritar:

        – Gewelddadiges! Gewelddadiges!

       Todos nós abaixamo-nos por detrás das caixas. Espreitei um pouco por cima e não vi ninguém a entrar pela porta, mas vi os cadáveres dos que tinham ficado lá fora no armazém a sangrar no chão. Abaixado, fui para o lado da porta esconder-me e ia prestes a afastar-me de cobertura um pouco… Quando um tiro passa de rasteiro perto de mim. Imediatamente, afasto-me dali e vou ter com o Jawaad.

        – Diz-lhes para tomarem posição nas janelas e atrás da porta! Não podemos deixar que eles entrem cá dentro!

        – Ok! Vou tratá disso!

        Apressei-me para uma das janelas e pude ver alguns dos tais Gewelddadiges. Não eram crianças e sim adultos armados com M16, a dispararem para a entrada. Alguns deles vinham a correr desde a floresta até á entrada, sem notarem em mim na janela. Peguei na minha AK47, fiz pontaria, e estava prestes a disparar… Mas vou admitir: Não tive coragem para o fazer. Não tive coragem para matar. Ou pelo menos, até que um dos que vinha a descer notou em mim. Aí, como mera reacção automática, meti o dedo a fundo no gatilho. Matei uns três de uma vez. Nem sei. Foram abaixo, enquanto os outros que vinham foram mortos pelos nossos que estavam na porta. Por um momento, depois daquele breve tiroteio, tudo ficou calmo por alguns segundos. Foi uma barragem de tiros, mas agora estava tudo em silêncio. Começámos a sair pela porta abaixados, com atenção para garantir que estavam todos mortos… E todos pareciam estar, até que um tiro vindo sabe-se lá de onde atingiu um dos nossos. Eu estava ao lado dele, no momento em que o tiro atravessou o peito dele e todo aquele sangue voou pelos ares. Fiquei espantado ao ver que o atirador que deu o tiro escolheu-o a ele e não a mim. Matei naquele dia. E o morto podia ter sido eu.

        – Merda! -Disse-me o Jawaad – Sniper na floresta! Abaixa-te!

        Atirei-me, tal como todos os outros, para o chão. Estar perto do chão dá-nos conforto e segurança. Disparámos todos em conjunto para entre as árvores, com a esperança de atingir o sniper isolado. Eu era o “rapaz da frente”, por isso tive que ir na frente para ver se ele tinha sido morto. Enquanto subia, estava cheio de medo que ele tivesse ficado vivo e aparecesse do nada e me desse um tiro. Já me estava a preparar para dizer as minhas palavras finais (Isto é, se tivesse tempo!) quando qual não foi o meu alívio quando eu vi o inimigo no chão, com a sua sniper por cima do seu cadáver. Fiz sinal aos meus companheiros. Eles baixaram as armas e foram ter comigo. Disse ao Jawaad:

        – Então… Podemos voltar?

        – Agora mesmo.

        Tivemos que esperar alguns minutos que o camião voltasse a passar por lá, tal como planeado. Quando o camião voltou, o Jawaad informou o condutor da situação, enquanto alguns outros saíam do autocarro que vinha e entravam pelo armazém para carregar o armamento que encontrámos para outros camiões e carrinhas que vinham aí.

        Metemo-nos dentro da mesma carrinha que nos veios por e voltamos á base, mesmo na hora do almoço. Comemos o almoço, que em vez de ser sopa com pão naquele dia foi sopa com peixe. Para ser honesto, preferia o pão.

        Naquela noite em que passei a reflectir no dormitório, fiquei a pensar no que eu tinha feito. Eu tinha morto alguém. Whoah. Eu sei que certamente aqueles não eram bons indivíduos, e se eles estavam no meio desta “guerra tribal” então certamente não eram pessoas de fazer o bem. Mas o simples ato de matar… Será que alguns deles eram pessoas como eu? Que também tinham entrado nesta guerra apenas forçados porque não receberam escolha? É… Uma pergunta interessante da qual eu nunca saberei a resposta, pois agora eles estão mortos. Não sei quem eles eram ou porque exactamente nos queriam matar, mas agora retirei mais três vidas ao mundo. Mal consegui dormir a pensar nisso. Simplesmente porque custava pensar no que eu tinha feito, e ao mesmo tempo não me saía da cabeça.

        No que é que eu me tinha tornado?

        Os dois dias seguintes não foram nada de especial. No primeiro pratiquei a minha pontaria com garrafas e no segundo tudo o que fiz foi tomar as “refeições” (Isto é, se pudesse se chamar ao que eles dizem ser refeições) e ficar deitado na cama, a pensar na minha vida. O que me estava a acontecer? Porque é que eu não posso simplesmente voltar aos tempos onde a “guerra” era apertar botões em jogos de computador? Tempos que nem há 5 dias tinham desaparecido e já me estavam a fazer saudades. Agora eu estava a tornar-me em algo novo. E pior. E mesmo assim, ainda havia em mim algum tipo de fome insatisfeita, uma fome além de ser por boa comida, também por mais alguma coisa que eu não conseguia explicar.

        No dia seguinte é que as coisas se tornaram sérias. Ou bom, mais do que já estavam. Fiz provavelmente o que muitos consideraram “O grande ato heróico que me provava como um verdadeiro Moordenaar”, mas que por outro lado é algo que eu realmente nunca devia ter feito.

        Não é que eu sequer pudesse imaginar as consequências, mas certamente tudo seria mais fácil até agora se eu não tivesse feito aquilo.

        Acordámos com o Thulani a chamar-nos, aparentemente, para algo sério. Fomos ter com ele á sala de conferência, que acabou de ganhar uma melhoria! Não, não puseram uma cadeira ou um projector ou sequer alguma mobília, mas tinham arranjado uma TV! E foi nesse momento que vi o que estava a passar na TV- Uma notícia de um telejornal com o seguinte título:

        “Africa airplane crash alerts USA’s Navy SEALs”

        Basicamente o que a pivô dizia na notícia era alguma coisa do tipo:
“… The reason of the crash is still not certain due to the fact that still no one got into the crash site, although there appear to be no survivors at the moment. The problem is, according to the last records heard by the control tower, the airplane was actually hit by what some investigators say to sound like an explosion caused by a “Sent-to Air Missile (SAM)”. While ONU and medical teams are still trying to reach the crash site in the middle of the African jungles, some US SEALs have volunteered to dispatch together with the Search & Rescue teams to make sure that if this was a job from a ground-located terrorist force then they will have  clearance to open fire…”

        Furioso, o Thulani desligou a TV e pôs-se a berrar connosco, mais ou menos como o Hitler no Downfall. Desde que cheguei àquele lugar já tinha ouvido mais pessoas a berrarem e gritarem do que a falar normalmente. Parecia que quase ninguém conseguia manter um tom de voz normal. E após o Thulani gritar, espernear-se, contorcer-se, suspirar, gritar mais e dar murros na parede para provar que estava furioso, voltámos aos dormitórios para irmos buscar e carregarmos as nossas armas. Enquanto metia as balas no carregador da minha, virei-me para o lado e perguntei ao Jawaad:

        -… O que é hoje então?

        – Tipo, tásaver o avião que caíu por aí? Aquele ganda desastre?

        – Claro… Eu vim de lá, duh!

        – Os Americanos vêm prós nossos territórios investigar a cena.

        – E então?

        – Então, e se os mambos descobrem á nossa base?! Não podemos deixar que isso aconteça!

        – Ou seja…

        – ‘Seja, vamos ter que sair por aí e matar qualquer desses Americanos que passarem por perto.

        – O QUÊ?! Mas isso é um absurdo! Vocês não sabem o quão avançado é o equipamento deles? Se eles sequer nos virem, estamos lixados!

        – Opah, mas são eles ou nós!

        – Isso não é estúpido? Ter que ir matá-los só porque eles estão perto dos destroços de um avião?

        – São as ordens! E as ordens são matar os Americanos! O Thulani que disse, nós fazemo! Agora carrega masé essa cena e vamos!

        Sem poder protestar (Diremos, com receio de que algum dos adultos compreendesse Português e me matasse) saímos dos dormitórios e consecutivamente da base, com as nossas armas prontas.

        Prosseguimos a andar pela floresta dentro, horas a pé até ao lugar onde o avião tinha despenhado. Após uma longa caminhada, quando já estávamos próximos, comecei a ouvir do nada uma música. Fortunate Son, dos CCR. Fiz-lhes gestos para eles se baixarem. Caminhei, agachado, para a minha esquerda, de onde vinham os sons. Vinham de uma estrada bastante larga que atravessavam a floresta. Segui um pouco essa estrada, com os outros atrás de mim abaixados deparando-me com alguns montes e colinas, por onde a estrada também atravessava. Comecei a ouvir ao fundo, juntamente com a música que estava extremamente alta, o barulho de veículos a virem. Humvees. Escondi-me atrás de uma das pequenas colinas e, escondido entre algumas ervas, observei os Humvees. Eram dois Humvees típicos Americanos, armados até aos dentes, com uma blindagem capaz de fazer inveja a tanques Russos e com uma enorme M60 montada no topo de cada, embora não tivesse ninguém a usá-las. Observei-os. Pararam a alguns metros de nós e saíram cada um dos seus respectivos Humvees para o exterior. Eram quatro soldados Americanos, provavelmente SEALs, armados com M4A1s e UMPs-45, todas com silenciadores e Red Dots. Um deles pega em uma espécie de “walkie-talkie”. Consegui ouvir a conversa deles:

        – This is Breacher 9 reporting back to base, Rotfox, do you copy?

        – Roger that, I’m hearing you loud and clear, Breacher 9.

        – Rotfox, according to the GPS coordenates we are near the crash site, still no hostile contacts inbound…

        – Keep your fingers on the trigger, we are sending our Apache to the area in case if you may need air support. It could be nothing, but we must make sure that, when the S&R teams arrive, the area is clear and…

        Imediatamente tive uma ideia. Podia ser a única maneira de terminar isto. Virei-me para o Jawaad, que estava escondido ao meu lado e disse-lhe:

        – Diz aos teus amigos para ficarem para trás. Eu vou “enganar” os Americanos e falar com eles para “despistá-los”. Não saiam daqui.

        Passei para o outro lado da colina, abaixei a minha AK-47 e gritei aos Americanos para não só para não dispararem mas também para que com este berro de alerta me vissem:

        – PLEASE! DON’T OPEN FIRE!

        Ao verem-me com a AK, a primeira coisa que os Americanos fizeram foi apontarem logo as armas deles para mim, mas sem dispararem. Assim que me aproximei devagarinho deles, com o meu dedo afastado do gatilho e com a minha AK apenas segura ao meu pescoço pela alça que tinha presa, eles também abaixaram as deles. Continuei a falar, a rezar para que ninguém dos Moordenaars que me tivessem a ouvir soubessem falar Inglês:

        – Listen! There is an armed group with child soliders with a base settled around here! Please! You need to something! They’ve made me as a prisioner and wanted me to kill you! I don’t want to do this war!

        Um deles olhou para mim e disse:

        – Ok, relax! Come with us in the Humvee, me and Breacher will take you to our base!

        – Where?

        – around 11 miles from here to the North, but if we mark an LZ for our CH-46 around here you will be there in no time! Let´s go! Get into the…

        Antes que o soldado pudesse terminar, os Moordenaars imediatamente pulam da colina e aparecem a disparar para os Americanos, antes que eles sequer pudessem reagir. Baixei-me imediatamente, de olhos fechados e com as mãos nos ouvidos, no meio daquele monte de tiros altíssimos e balas a voarem violentamente para todo o lado. Quando consegui coragem para abrir os olhos e olhei para os lados, deparei-me com os quatro soldados com o corpo cheio de balas, a sangrarem no chão. Um deles, que parecia ser o tal Breacher 9, disse-me, ainda ligeiramente vivo (Mesmo encharcado em sangue), olhando para mim:

        – Fucking… Ambusher…

        Foram as suas últimas palavras, morrendo em seguida, ali, de olhos fechados. Os outros três já estavam mortos. Não sobrou nenhum. Levantei-me, com os Moordenaars a descerem a colina para ao pé de mim com as armas apontadas para os soldados mortos, prontos para “enfiar bala” caso algum ainda se mexesse. Disse em alto:

        -Merda.

        Ainda a recuperar do susto, ouvi uma voz de fundo, do walkie talkie que tinha ficado caído no chão no meio do tiroteio:

        “… Breacher 9! Do you copy? I repeat, do you copy? Dang! Our air support is on the way, the Apache is almost there, do you…”

        Peguei no walkie talkie e, em um momento de raiva instantânea, atirei-o para longe. O meu plano para fugir de vez dali e voltar para casa tinha falhado. O Jawaad foi ter comigo, aparentemente surpreendido, e perguntou-me:

        – Tu… Que distraíste os Americanos?

        – Sim, Jawaad… Estava precisamente a… Hã, distraí-los com conversa seca para vocês poderem matá-los. Fizeram a coisa certa.

        Jawaad começa a sorrir:

        – Não mano, TU fizeste a cena certa, pá! Tipo, essa foi mesmo boa! Lixaste bem os mecos!

        – Os agradecimentos podem ficar para depois, agora VAMOS BAZAR DAQUI! VÊM AÍ UM APACHE! FUJAM!

        – O quê mano?

        – Um helicóptero! Daqueles que pode estar a uns 50 quilómetros de altura que nos consegue matar! Rápido, diz-lhes para nos metermos pela floresta, pode ser que o Apache não vos veja no meio da vegetação!

        Enquanto Jawaad dizia isso aos outros, já eu corria para o meio da floresta, desesperado. Mas quando eles todos começaram a correr atrás de mim, já era tarde demais… Mesmo nós nem conseguindo ver ou ouvir helicóptero, eu já conseguia ouvir os tiros e mísseis a caírem atrás de mim. Olhei para trás de mim por um momento e foi o horror: Deu para observar os Moordenaars a literalmente voarem pelos ares no meio de explosões, a ficarem queimados para trás e a serem dizimados a cadáveres. Corri pela floresta adentro, assim como os que sobreviveram, felizmente fora do alcance da vista do helicóptero, afinal nem o equipamento super avançado dos Americanos era suficiente para conseguir ver por entre o meio de tantas árvores e vegetação… Mas não estávamos fora do alcance da mira. Mesmo sem nos ver, o Apache continuou a disparar e a usar artilharia pesada sobre toda a floresta, sem ter a certeza do que atingia naquele momento, mas obviamente, com tantas explosões e tiros, acertando mais um monte de Moordenaars. Corremos desordeiramente para lados opostos, até deixarmos de ouvir o Apache a abrir fogo. Olhei para mim mesmo para ver se ainda estava intacto. Bem, felizmente nada mais além de um ou outro arranhão, só não é que o mesmo se pudesse dizer quanto aos outros. A maioria encontrava-se estendido pelo chão, e queimado ou não, uma coisa eu posso afirmar: Não havia nenhum cadáver intacto. Ou estavam com buracos do tamanho da Rússia no peito, ou estavam sem cabeças ou sem pernas ou sem braços, ou até mesmo alguns estavam divididos em 2 pedaços. Enfim, a floresta tinha-se transformado num banho de sangue. Os que sobreviveram começaram a gritar alto uns com os outros, para nos reencontrarmos no meio daquela confusão de cadáveres, incêndios e árvores caídas. No final, não tinham sobrado muitos mais vivos do que eu, o Jawaad e uns ou outros que tinham corrido a tempo.

        – … E agora, mano?- Perguntou-me o Jawaad.

        – Agora, voltamos para a base e jantamos, nem que seja o último jantar das nossas vidas. Metemo-nos com os Americanos… Quero ver agora como vamos sobreviver a isto! Eles têm equipamento superior a qualquer coisa nossa. Acho que nem aquelas Colts que roubámos ontem devem chegar para os enfrentarmos, pelo menos, com pé de igualdade.

        – Mas…

        – Confia em mim, tu não sabes do que a tecnologia deles é capaz. Reparaste bem como foi aquilo há bocado? Aquilo foi apenas uma mera amostra comparado ao que eles são capazes. Eles têm snipers capazes de atravessarem tanques, aviões telecomandados que disparam mísseis telecomandados e até alguns desses mísseis são suficientes para transformar o espaço desde aqui até à base em uma enorme cratera! Acabámos de nos meter com as forças que certamente têm o melhor equipamento militar do mundo. Se eles descobrem a base, e confia em mim, não vai ser difícil para eles, nós estamos, digo-te já… Totalmente f****! Vamos voltar mas é para a base!

        Jawaad passou as minhas ordens para os outros. Caminhámos de volta á base, apenas pela floresta, para caso aparecesse o Apache de novo não nos visse. Quando chegámos á base, altura em que já era de noite, aparece-nos o Oficial que me tinha passado as funções em Inglês no primeiro dia. Estava furioso. Muito provavelmente por algo tão “simples” como ir matar uns Americanos ter acabado naquele holocausto, e com tão poucos vivos. O Jawaad respondeu-lhe qualquer coisa, que suponho eu, deve ter sido “Lamento, agora deixe-nos ir comer que daqui a pouco vão aparecer montes de F22s e bombardear esta cena toda”.

        Fomos todos Jantar para o refeitório (Mais uma vez o tão nutritivo pão com sopa). Não que tivessem sobrado muitos de nós, mas para compensar vieram bastantes crianças das outras divisões da base, onde todos naquele jantar partilharam a história do que tinha acontecido e do que provavelmente se ia passar. Eu não conseguia perceber nada do que eles falavam, mas uma coisa era óbvia pelos olhares e pelos tons de voz deles: Medo. Eles estavam totalmente assustados. Afinal a vida deles era esta, morrer pela “grande causa”, mas no geral estavam bastante assustados pelas histórias que percorriam pelo refeitório durante o Jantar sobre a possibilidade dos Americanos os encontrarem.

        Ou “Nos”encontrarem.

        Nem sei. No meio desta coisa ridícula, é difícil dizer que se segue um lado. Aliás, e de que lado no meio disto estou? Não sou nem um Moordenaar. Nem sou um Gewelddadige. E por mais que eu admire o equipamento deles, não sou um SEAL. Sou apenas do lado que quer fazer o bem e lutar pela paz no mundo. E olhando pelos outros“lados” que tenho visto por aqui… Não consigo bem identificar se exista sequer algum lado que seja totalmente a favor disso.

        Bem, mas voltando ao Jantar, foi nessa altura onde uma coisa de especial aconteceu. Para minha surpresa, uma das raparigas que veio servir-nos a sopa foi precisamente ninguém menos que ela.

        A Bianca. Até ainda com as mesmas roupas cheias de sangue do dia do desastre.

        Olhei para ela, mas ela evitou totalmente olhar para mim. No começo, achei que ela estivesse ainda em choque e que certamente a minha presença ali não lhe ia a ajudar a esquecer tudo o que acontecera antes, mas não era nada disso. Ela só não queria chamar a atenção.

        Como? Ao segurar a minha tigela para beber a sopa (Engraçado que naquele lugar havia várias AKs, mas nenhuma colher), notei que havia qualquer coisa debaixo da tigela. Sem tentar dar muita atenção, bebi a sopa, virei a tigela do avesso e vi em baixo um bilhete escrito a caneta, colado com fita-cola á parte de baixo da tigela.

     “Estarei na cozinha esta noite, vem assim que puderes. PS:Estou farta

        Fui para a cama, a pensar em como faria para ir ter com ela á cozinha. Planeei que logo que todos pregassem o olho (Ou bom, pelo menos os que ainda não tinham dormido até ali) a primeira coisa que eu ia fazer era levantar-me e ir á cozinha. Meti-me dentro dos lençóis e fingi dormir profundamente, mas ainda atento até ao momento onde todos eles dormissem.

Estava a observá-los. Frio e atento. No fundo é sempre assim que eu fui: Frio quando me foco em entender o mundo á minha volta. É bom pois uma pessoa fria parece estar totalmente desligada do mundo, mas no fundo é sempre o mais frio que está mais atento a tudo. Especialmente ao momento de atacar.

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