Younger Warfare- Capítulo 1: Partidas suaves e chegadas brutas
Na sexta segue lá estava eu, de mala de viagem, juntamente com os meus colegas (Ou pelo menos com a maioria) no Aeroporto de Lisboa. Ainda me lembro, de eu, o Lucas e o Camilo (Os meus maiores amigos) atravessarmos a entrada do aeroporto juntos e descontraídos, a conversarmos. Sem nenhum adulto por perto, só nós os três. Nunca entrei num aeroporto apenas com amigos. Fez-me sentir um adulto, mesmo só tendo 14 anos. Boa sensação. Enquanto íamos para o check in e conversávamos, levando aquelas enormes malas de rodinhas carregadas de roupa e revistas porno (As deles, claro!) e discutíamos com o nosso geral calão sobre qual era a gaja mais boa da escola e sobre quem tinha feito o melhor K/D no Black Ops naquela semana, foi aí que o Camilo nos disse:
-Hey, já sabiam que também vem pessoal do 9ºB e do 9ºD connosco?
-Opá, tás a gozar, certo? Quem te disse? – Perguntei eu.
-Não, é mesmo! O Vítor disse-me ontem pelo Facebook, parece que vai ele e quase a turma toda.
-Mas o Vitor não era do 9ºB? Como sabes que também vêm os do D?
-Tipo, a DT do D e do B é a mesma, portanto vais ver, digo-te só!
-Ya, ya, vamos ver!- Disse o Lucas
E qual não foi a nossa surpresa (ou pelo menos a minha e a do Lucas) quando vimos os do 9ºB e do 9ºD todos na fila do check in, juntamente com os da nossa turma a conversar uns com os outros.
-Já estava a ver que vocês não vinham Disse a setora ao ver-nos chegar.
-Tenha dó setora, tivemos que vir desde a Musgueira até aqui a pé!- Disse o Lucas
-Também, quem mandou o Lucas ir viver tão longe daqui?- Disse o Camilo
Enquanto eles ficavam a conversar sobre quem vivia longe e perto e a questionar-se porque é que raios tivemos a ideia de nos encontrarmos todos primeiro na casa dele antes de virmos para o aeroporto, nos meus típicos olhares à volta notei em algo curioso. No meio do grupo de turmas que se formava em monte para o check in, apercebi-me que no meio deles estava uma pessoa… Diremos, de interesse. Curiosamente, a mesma rapariga da T-shirt do Death Note com que eu choquei no corredor na sexta anterior. Já que ela estava distraída a falar com a amiga dela, decidi dedicar algum tempo a observá-la. Ela era boa… Uma face perfeita… Cabelos negros… E parecia ser ainda melhor para além dos seus olhares. Ela não estava a usar a t-shirt do Death Note nesse dia, porém. Ela estava a usar uma camisa branca e uns jeans completamente negros.
Porque é que eu me meti a observá-la? Achei que se pudesse justificar como simples instinto masculino adolescente, de olhar para as raparigas. Mas acho que era no fundo como se eu conseguisse ver o futuro nos olhos dela.
Só parei de viajar a olhar para ela quando ela olhou de volta para mim com uma cara um pouco estranha, mais ou menos naquela de “Mas quem raios és tu?!” . Antes que eu pudesse esboçar algum tipo de reacção, o meu instinto natural foi imediatamente virar-me de novo para o Lucas e para o Camilo, sorrir e fingir que estávamos a ter uma conversa onde por algum motivo tive que olhar à volta para observar a decoração do aeroporto. Resulta sempre… acho eu.
E lá nos metemos a conversar de novo, enquanto fazíamos o check in com os outros e íamos caminhando até á nossa Gate das partidas, comigo olhando uma ou outras vezes para aquela rapariga pelo caminho, e com ela algumas vezes obviamente notando. Não sei porque é que eu estava sequer interessado em prestar-lhe atenção na altura. Não sei se eu tenho poderes psíquicos ou se foi simplesmente uma mera coincidência. Bem, de uma maneira ou outra, lá estávamos nós a caminhar para aquele voo. Continuávamos com as nossas conversas parvas, com mais um ou outro das outras turmas que se juntava à nossa conversa, quando ao chegar à Gate… notei no avião que estava pronto para nós na manga. Bem devia ter pensado 2 vezes e recusar de vez mesmo após ter gasto o dinheiro. Era um avião da TAAG. Daqueles aviões péssimos que se usam para ir e vir a Angola, que mesmo com uma fuselagem, diremos, bem pintada por fora, tem a qualidade interior de um metropolitano de Nova Iorque. Fui logo perguntando:
-Não vamos ter que embarcar num avião da TAAG, certo?
-Porra…
-Não é na TAAG onde eles cagam em cima de um prato e servem-nos como se fosse o almoço?
-Mais ou menos.
Fui de imediato ter com a professora.
-Setora! Não podíamos ir ao menos em outra companhia aérea de jeito? Sei lá, a Emirates?
-Sim, pois! Agora a escola ia ter dinheiro para comprar voos da Emirates! Olha lá, fomos NÓS que tivemos que pagar todos os vossos voos com os 40 euros que vocês nos deram e com o nosso próprio dinheiro! Preferias ir onde? Num daqueles aviões de qualidade do 3º mundo da Air Afrique?
-Mas a Air Afrique não fechou em 2002?
-Vez? Até estás com sorte! Agora pira-te e volta para os teus amigos!
Sem escolha e vendo que obviamente já era tarde de mais pra fugir dali, voltei para o pé dos meus amigos. Logo nos metemos em fila e fomos entrando para o avião. Assim que entramos, bem… Até que nem parecia tão mau como eu pensava. Pelo menos o avião estava limpo. Claro que ia custar permanecer umas boas horas ali, mas bem… Ao menos era capaz de levantar voo e aposto que era bem capaz de aterrar. Não me lembro que avião é que era, às tantas era um Boeing ou um Airbus. Parecia até ser bom. Mas de uma maneira ou outra a setora, como é óbvio, decidiu ser ela a escolher os nossos lugares no avião. Não era daqueles aviões enormes com grandes fileiras de 3 ou 4 lugares por lado e mais outros 4 pelo meio, eram apenas filas de 2 por cada lado. Mas deu para dividir: uns colegas para um lado, mais uns colegas para outro… E inicialmente eu ia ficar sozinho, mas qual foi a minha surpresa quando a setora mandou aquela rapariga desconhecida que eu tinha andado a observar sentar-se ao meu lado. Tal como pura coincidência. Ela sentou-se do meu lado, eu na janela e ela do lado do corredor. Nem olhou para mim ao sentar-se. O Marcos, outro amigo meu que estava no banco da frente, virou-se para trás e metemo-nos a conversar, enquanto a rapariga se virou para o corredor para falar com uma amiguinha qualquer. Enfim, estávamos os 2 sentados lado a lado enquanto o avião preparava-se para dirigir para a pista e descolar, e nenhum de nós falava com o outro. Apenas nos metíamos nas nossas vidas, como se nenhum de nós existisse para o outro. É como se houvesse uma parede entre nós. Bem, não que isso importasse muito, afinal logo fomos todos obrigados a sentarmo-nos correctamente, pormos os cintos e prepararmo-nos enquanto o avião fazia o taxing até á pista.
Ficámos desde a chegada a pista até ao momento em que o avião levantou voo totalmente calados.
Eu ficava a olhar para a janela a ver o aeroporto, a observar os aviões de diversos tamanhos e formatos a irem de pista em manga e de taxing em taxing, e ela ficava a olhar para… Bem, a parte de trás do assento da frente. Bem, é onde normalmente se olha quando se está dentro de um avião e não se está no lado da janela .
Levantamos voo tranquilamente. Durante a 1ª hora continuou dessa mesma maneira. Enquanto eu estava a olhar pela janela, pude notar baixinho que ela estava a ouvir MP3. E estava a ouvir uma música que não me era estranha. Reconheci logo no momento em que consegui notar na voz a cantar “… A red door and I want it painted black…”.
Ela estava a ouvir Rolling Stones.
Wow… Death Note… Rolling Stones… Havia muito que pudesse ser dito em relação a essa rapariga. Bons gostos pelo menos, isso devo dizer! Ela parecia ser alguém com que eu realmente me daria bem se a conhecesse sequer. E após mais algum tempo de voo, decidi pôr as minhas aptidões sociais à prova e falar com ela. Pensei no que dizer e a primeira coisa foi logo:
– Hey, tu gostas de Death Note?
Ela olhou para mim com uma cara um pouco “Hã… Quem és tu?” e respondeu:
-Sim… E tu gostas?
-Sim, também gosto…
Comecei a notar que assim que disse que gostava de Death Note ela começou a sorrir ligeiramente. Não propriamente a sorrir para mim, mais um sorriso de… Bem, de prova que não devia estar descontente.
-Fixe! Qual é o teu personagem favorito?
Fiquei um pouco à toa. A verdade é que simplesmente fiquei fascinado por ela gostar de Death Note porque já montes de gente me tinha falado do Death Note e dito que era um mangá fantástico. Mas para ser honesto, nem sabia o que dizer.
-Deixa me advinha…Kira? –Disse-me ela. Eu, como já não tinha nada mais que pudesse salvar o meu argumento, simplesmente respondi logo:
-Ahhh… Sim…Claro que é a Kira!
Notei que o sorriso dela logo se foi.
– Hey… Tu sabes que o Kira é o protagonista do Death Note, certo?
-Ah… Sim, claro, foi o que eu disse… O Kira…
-Hum… Okay… Tá fixe…
Coincidência falar de animação Japonesa, pois tudo o que estava na minha cabeça naquele momento foi “Baka! Baka! Baka!”. Ela obviamente percebeu que eu atirei totalmente a cena do Death Note para o ar para meter conversa. Ficámos calados por mais alguns segundos até que ela deu uma risada não propriamente de diversão e disse-me:
– Tu não me conheces de lado nenhum! Quem és tu?
– Quem eu sou ainda preciso de descobrir em mim mesmo. E tu?
– Boa frase, essa foi profunda.
-Não me leves por nada de “julgamental”, mas tu pareces-me ser o tipo de pessoa que gosta de rock, lê mangá e sente-se revoltada contra o mundo. Espero que não esteja a…
Ela suspira e diz logo:
– Como é que sabes tanto? Andas-me a seguir? Tipo stalker?
-Hã, não, que ideia…
-Estranho…
– Sim, um bocado… Hum…
– Bem, vou ali à casa de banho e já volto…
-Ok…
Olhei para ela a ir-se embora e entendi logo: Essa de ir ao WC foi uma boa prova de que ela devia estar extremamente farta da conversa. Estou muito certo que ela só quis ir mesmo para poder desaparecer dali por um momento. Bem, por outro lado vou admitir: foi cá uma sorte. Se ela não tivesse no WC, se calhar ela não teria tido tanta sorte no evento que se segue. Como o evento de estar sentado no meu lugar… A pensar se haveria outra maneira de dar a volta à situação quando ela voltasse…. Quando de repente apanho o maior susto da minha vida.
Ou melhor, começo-o a apanhar a partir daquele momento.
Do nada, no meio do silêncio dos meus pensamentos, ouço literalmente algo que eu poderei descrever como montes de canhões a explodirem dentro do avião. O avião todo começou a estremecer sem parar. Foi nesse momento que olhei pela janela e vi a asa totalmente esburacada, como se tivesse levado tiros de uma pistola gigante. Ao contrário do que possa soar, nem o motor estava a arder, estava simplesmente a fumegar depois de ter EXPLODIDO COMPLETAMENTE. Pior, o avião obviamente cedeu á gravidade e começou a cair a pique. Ocorreu-me o pânico total, basicamente como a qualquer outro dentro do avião. Pulei do meu assento e a minha primeira reacção natural foi correr desordeiramente pelo corredor central do avião acima. Porquê? Porque é um instinto. Tanto que eu nem sabia para onde ir no meio daquela confusão de gente desesperada, ou para onde ia correr propriamente. Só queria sair dali o mais depressa possível, do meio daqueles berros e janelas a estoirarem de todos os lados, e como se de alguma maneira se eu fosse subindo o corredor acima (acima pois o avião estava praticamente a cair em vertical) eu acabasse por encontrar uma solução. Uma maneira de me salvar daquele desastre inevitável. Não fazia a menor ideia do que tinha provocado aquilo ou do que é que se passava: Só sabia que o avião ia ficar praticamente espalmado no chão e que tinha que haver uma maneira de eu sobreviver. E enquanto máscaras de oxigénio caíam dos compartimentos em cima dos acentos (Hmpft, está-se mesmo a ver… Como se fosse uma máscara com um saco á frente que nos fosse salvar) e o vento sugava tudo pelas janelas, lá estava eu, desesperado, com respiração cortada, a tentar chegar lá em cima enquanto o avião ficava cada vez verticalmente mais íngreme, e começando a rodopiar em torno de si mesmo perante a queda a uma velocidade absurda. No meio de tanta confusão, só conseguia entender que o avião estava cada vez mais perto do chão a cada segundo… Como é que era possível alguém sobreviver a uma queda daquela altura? Naquele momento, enquanto “escalava”, só tinha em mente a monte de coisas que me lamentava da minha vida, de pensar que foi pena não ter vivido o suficiente para perdera virgindade ou beijar uma rapariga! Achei que aquilo fosse o fim final… Que tudo fosse acabar naquela fracção de segundos… Segundos esses que ocorreram em seguida, onde o avião finalmente atingiu o solo. Lembro-me de olhar para baixo no momento em que o avião caiu e vi algo que era como uma bola de fogo enorme que vinha na minha direcção de baixo para cima. Assim que aquela enorme bola flamejante se aproximou de mim…
A minha vida passou toda diante dos meus olhos…
Foi uma sensação excelente, provavelmente uma das melhores que tive nos meus 14 anos de vida. Não senti dor. Não me senti a arder. Só senti-me calmo. Muito calmo. Como se tudo fosse ficar bem. Como se o todo universo tivesse ficado okay á minha volta. Eu praticamente conseguia ouvir o Great Gig in The Sky dos Pink Floyd a tocar dentro da minha cabeça naquele momento. Que boa sensação de estar praticamente morto completamente em paz, agora sem remorsos de nunca ter beijado ninguém ou outras lamechas estúpidas. Consegui sentir-me praticamente nas nuvens, a descansar encostado confortavelmente nelas, como se fossem sólidas. Ahhhhhhh…Que bom. Soube bem.
Só após algum tempo, que não consigo determinar exactamente se foram segundos, minutos ou até horas, é que comecei a voltar-me a sentir em um estado “físico” de novo. Comecei a notar que estava montes de calor e montes de vento ao mesmo tempo. Consegui sentir um fresquinho enquanto eu estava confortavelmente aquecido. Oh não! Será que eu errei em mim mesmo e sem querer fui parar ao purgatório entre o céu e o inferno? Ou será que o cheiro de queimada me pudesse estar a provocar ilusões além da minha imaginação e dos meus delírios? Só me lembro de depois de começar a sentir o calor e o frio é que reparei que estava deitado sobre a terra. Á medida que ia recuperando os sentidos, olhei á minha volta. Bancos, cadáveres, pedaços da fuselagem, asas… Estavam todos espalhados em minha volta, bastantes ainda em fogo. Ninguém mais parecia estar vivo. Surpreendentemente, sem nenhum osso partido, levantei-me sem necessitar de muito esforço. Só foi o maior esforço quando ao levantar-me incidentalmente olhei para o meu braço e notei em um corte enorme que ia desde o ombro até quase ao cotovelo, e que estava a deixar o meu braço totalmente coberto em sangue. Ainda meio tonto, e não vou mentir, a começar a chorar, segurei no meu braço e desesperadamente enrolei-o em um casaco que estava no chão, com esperanças de conter o sangue. Bem, felizmente consegui por sorte não morrer ali por esgotamento de sangue. Ainda com o meu braço apertado ao meu peito, a premi-lo enrolado ao casaco com a ajuda do outro, caminhei o mais rápido que consegui e quase a chorar rios inteiros para fora da zona de destroços. Caminhei, caminhei, caminhei. Até que após me afastar um pouco do que restava do avião, ainda a ouvir o barulho das chamas a levantar-se, consegui conter os meus choros. Admito, choros tanto de dor física como emocional de estar perdido no meio do nada enquanto os meus amigos estavam mortos) e olhei á minha volta. Foi aí que notei em algo óbvio mas que só agora consegui prestar atenção: Eu estava no meio de uma floresta enorme. Era de dia e eu apenas conseguia ver o sol a partir da luz que atravessava delicadamente entre as altíssimas árvores. Deixei-me cair no chão. Por um breve momento queria ver se “morria” de novo, para poder voltar de novo àquele belo estado de estar meio acordado e meio a dormir em que estava antes. Mas não adiantou. Não sei se vivi uma experiência de vida-pós-morte ou se fui eu que simplesmente fiquei inconsciente e alucinei assim que o avião se despenhou, mas o que quer que me tenha acontecido, por melhor que tenha sido, foi algo sem retorno. Agora eu tinha que enfrentar a realidade de estar perdido praticamente no meio da selva, a sangrar de um braço e sem ninguém por perto. Ou bem… Pelo menos era o que parecia.
