Younger Warfare- Capítulo 5: O pôr do sol no horizonte

Posted in Uncategorized on Junho 15, 2011 by henriquedematos

A estrada obviamente não era das melhores. Cheia de curvas apertadas, solavancos e buracos. Era como se aquela estrada não devesse existir, e realmente não devia. Tanto que eu, como o belo condutor que sou, consegui após uma ou duas curvas e a meio quilómetro de distância da base, decidi olhar para trás para ver a base em fogo, e bati contra uma árvore.

        Felizmente, como eu não ia lá muito depressa (Não é que eu sequer tivesse coragem de acelerar selva dentro com o pedal a fundo naquela carripana) nem eu e nem a Bianca nos magoámos. Não que o mesmo se possa dizer quanto ao jipe, afinal era de uma qualidade tão boa que ficou com a parte da frente quase até ao acento do condutor totalmente esmagada, obviamente destruindo o motor.

        -… Estás bem?- Perguntei eu, depois da pancada e do jipe ficar ali inutilizável.

        – Acabas de destruir o jipe e o que me perguntas é “estás bem”?

        – Calma, podemos fazer o caminho a pé! O jipe era só uma maneira rápida de escapar da base em si!

        Ela suspira e diz:

        – … Ok. Vamos lá.

        Ela pegou na M4A1, eu na AK47 e saímos a pé, metendo-nos pela floresta no meio daquela noite escura. Foi ao afastarmo-nos um pouco do jipe que ela me perguntou:

        – Hey, mas espera! No meio disto tudo ainda não me disseste uma coisa: Vamos para “onde”?Simplesmente partimos em direcção ao horizonte em busca de “algum lugar”?

        – Achas? Peraí…

        Tirei a bússola do bolso e continuei a falar.

        – Pronto! Até onde eu sei,  a base dos Americanos fica para o Norte. Podemos ir basicamente caminhando até lá.

        – Hã? A base Americana? Mas porquê para lá?

        – Ouve, se há alguém que consegue garantir a nossa segurança no meio disto são os Americanos. A sério… Não achas que se aparecermos por lá e contássemos a nossa história eles nos ajudavam e saíamos daqui de vez?

        – Ok… Então a que distância fica?

        – “11 miles from here”… Ou seja…Bem… Praí uns 17 quilómetros desde perto de onde o avião caiu, portanto desde aqui até á base Americana devem ser… Bem, uns 20 quilómetros.

        – Ah… Tás a sugerir que a gente caminhe 20 quilómetros a pé?

        – Não é assim tanto… Uma vez caminhei 9 quilómetros a pé em uma visita de estudo… Vais ver, não vai custar nada.

        – Sim, que excelente ideia! Fazermos 20 quilómetros a pé pela floresta no meio do escuro!

        – Bom, podíamos esperar o amanhecer. Mas…

        – … Mas?

        – … Tu sabes, estamos no meio de uma selva em África. Se ficarmos por aqui muito tempo, é bem provável que nos apareça um leão ou um tigre e nos devore, portanto acho que era mais seguro irmos logo o mais depressa possível, nem que seja no meio do escuro…

        – Ah, ok. Vamos lá logo.

        – Bora!

        Inicialmente foi um pouco difícil de nos orientarmos. Enfim… Não estava a ver a bússola lá muito bem no meio do escuro, mas após algum tempo de mexericar naquilo lá consegui ver a agulha a apontar para o Norte. Caminhámos a caminho do Norte, com algumas “short talks” pelo caminho. Nada de muito emocionante. Ambos tínhamos acabado de sair de uma batalha enorme causado por nós, portanto obviamente naquele momento não estávamos na melhor saúde mental possível, embora eu deva admitir que foi giro… Andar pela floresta no meio do escuro, acompanhado de uma rapariga armada com uma M4A1… Hmmmm… Foi melhor do que qualquer outra “actividade” que eu tenha praticado enquanto estava entre os Moordenaars. Embora tenha sido tudo na base de Short Talk, foi bom ter ao menos alguém ao meu lado naquele momento, mesmo que ela definitivamente não quisesse estar ali comigo.

        Amanheceu após algum tempo. Ainda não tínhamos dormido. Ainda nem estávamos com sono. Tínhamos passado a noite inteira a andar em direcção ao Norte, sem descansar. Combinámos apenas descansar quando voltasse a anoitecer, isto é, se nessa altura ainda não tivéssemos chegado lá. Caminhámos durante horas e horas. Estávamos extremamente cansados, tanto que já mal aguentávamos em pé. O sol brilhava no céu, e era pleno dia. Era como se tivéssemos perdidos no meio do nada, apenas a seguir por uma direcção com esperanças de chegar a algum lado. Felizmente não tivemos problemas de alimento ou de água, por sorte havia sempre um ou outro rio pelo meio do caminho, ou uma árvore com bons frutos, mas o facto de estarmos praticamente no meio do nada e o medo de nos aparecer um animal selvagem qualquer no meio daquilo ainda não nos tinha deixado. No meio disso tudo, deixei-me cair no chão e digo, estafado e sentando-me no chão:

        – Não aguento mais! Vamos descansar um pouco!

        Ela não respondeu, apenas fez um ar de tipo “ ‘Tás a gozar comigo? Tu é que tiveste a ideia e agora queres descansar?”, mesmo estando suja e igualmente cansada. Sentou-se ao meu lado (Não propriamente extremamente perto de mim, mesmo nós tendo que passar este tempo todo juntos eu notei que por algum motivo ela ainda queria uma boa distância de mim) e ficámos ali, parados por mais algum tempo… Petrificados… Como muitas outras vezes antes… A olhar a linda floresta verde.

        E pensar que por ali poderiam haver tribos primitivas que ainda se matavam para ver quem ficava com a sua floresta. Que ridículo. Os seres humanos… Que seres avançados que nos tornámos, e que seres primitivos que ficámos entre nós.

        – Bianca, diz-me… Tu achas que tudo isto vale a pena?

        – Tudo isto, como assim?

        – Tu sabes… Estas mortes todas que fizemos… E que vimos fazer…

        – Explica-te…

        – Bom, os Moordenaars eram contra os Gewócoisos-Quaisqueres, os Americanos ficaram contra os Moordenaars, os Moordenaars ficaram contra eles mesmos… E todos nos matámos uns aos outros.

        Ela riu-se.

        – O quê, Félix? Estás com pena daqueles gajos que matámos, é? Dos que só nos queriam fazer mal?

        – E porque é que eles nos queriam fazer mal?

        – Sei lá! Mas entende: Se eles nos queriam fazer mal, então eles eram maus. Se eram maus, fizemos bem em tirá-los deste mundo. Não achas?

        – Não sei… Tirar as vidas só porque estavam contra nós…

        – Tirámos vidas ridículas e desnecessárias deste mundo. Vá lá, Félix! Tu mesmo usaste a expressão: Rotten people! Eles mereceram! Tu sabes o que é o Death Note e nunca ouviste dizer “Rotten people must die”?

        – Hey, não tenho culpa de não ser assim tão otaku…

        – Rotten people must die. É uma frase, embora não propriamente dita em algum episódeo, usada por muitos fãs, que  resume os ideias do Light, ou seja, o Kira, e se aplica ao mundo inteiro. Já viste quantas pessoas “podres” há por aí? Criminosos… Assassinos… Ditadores… Gajos com a mania de que mandam e que sacrificam os outros para fazer os seus trabalhos sujos, como aqueles dois estúpidos que matámos, aliás, matei, lá naquele campo de concentração… Estamos a contribuir para a sociedade se tratarmos deles.

        – O quê, agora não me vais dizer que queres criar um mundo livre de violência matando as pessoas podres, certo?

        – Se eu pudesse… Sabes, se tivesse um Death Note como o Kira no Death Note… Era provavelmente o que eu faria. Mas bom, infelizmente cada um só pode fazer o que está ao seu alcance.

        – Então quer dizer que tu queres fazer a paz matando?

        – Ya… Mas também, qual é o mal? São apenas vidas inúteis.

        – Mas algumas dessas vidas não fizeram nada de mal! Não todas, mas algumas…

        – Não por enquanto! Mas pensa! Se a gente fosse embora daquela porcaria de base sem matarmos aqueles dois comandantes, o que ias tu pensar se daqui a 10 anos estivesses a ver nas notícias “Líder dos Moordenaars toma controlo da África inteira, ataques planeados em Portugal e Espanha”?

        – Isso é ridículo! Achas mesmo que eles iam chegar a esse ponto?

        – Também duvido… Mas enfim, nunca se sabe. Agora pelo sim ou pelo não, esses idiotas são apenas memórias. Admite e deixa de pensamentos profundos: Valeu a pena matar.

        – Ahhh… Sabes que mais? Agora eu é que tou a ficar com mais medo de ti… Hã… Digo, bem… Vamos andando?

        – Já estás totalmente descansado? Com a cabeça em ordem?

        – Sim, estou. Vamos lá.

        Metemo-nos a caminho. Por entre a floresta, passando por árvores, montanhas e rios, seguimos sempre para o norte, apenas com uma ou outra breve paragem para descansar no caminho. Em breve já se fazia noite. Não sabíamos que distância já tínhamos caminhado e nem sequer se íamos chegar vivos. Estávamos obviamente a ficar cansados, mas a nossa vontade de sair dali falava mais alto. Portanto decidimos deixar de lado a ideia de dormirmos aquela noite e passámos a noite, mais uma vez, no escuro, a seguir para o norte. No dia seguinte, já nem a Bianca aguentava. Estávamos cansados demais. Não nos importamos se pudesse a  aparecer do nada um leão ou alguma outra estupidez qualquer, simplesmente deitámo-nos no chão e ficámos ali deitados, naquela terra suja da floresta. Dormimos não sei por quanto tempo, só sei que quando a Bianca felizmente me acordou já se estava quase a pôr o sol. Continuamos a seguir em direcção ao norte. Quando damos pela conta, já o sol se punha no horizonte. A Bianca, já desesperada, olhou para mim e perguntou-me:

        – Félix… Disseste-me que eram apenas 20 malditos quilómetros… O que é que se passa?! Daqui a pouco… Já demos a volta ao mundo! Tenho a certeza que já percorremos para aí uns 40 quilómetros!

        – Por favor… Eu juro! Nós vamos encontrar a base! Eu sei que não confias em mim… Mas não preciso que confies. Só quero que continues…

        Ela imediatamente apercebeu-se que não teria mais qualquer outra coisa que pudesse fazer e continuámos a seguir o nosso caminho. Andámos, andámos. Andamos até não encontrarmos mais lagos ou árvores com comida por perto. As nossas mentes já estavam praticamente devastadas. Já nem conseguíamos raciocinar correctamente no meio de tudo aquilo.

        Foi aí que me apercebi: Quantas mais crianças soldados poderiam estar a passar o mesmo agora?

Talvez os Moordenaars tivessem da mesma maneira? Não faço a menor ideia de como terminou lá o “uprising” deles, mas como acho bem provável que eles tenham “ganho” aquilo, e também gostava de saber o que era feito deles depois de aquilo. Para onde eles iam? Será que eles iam ficar a morrer á fome dentro da base? Será que iriam continuar, mesmo sem os seus líderes, a guerra contra os Gewelddadige-Reëls? Ou iam simplesmente morrer por falta de mantimentos que apenas os líderes deles obtinham?

        Já era de noite. Mais uma noite. Nenhum de nós estava com cabeça para continuar. Sem falarmos, deitámo-nos no chão os 2 ali em uma pequena zona aberta da floresta, onde dava para olhar para as estrelas. Deitámo-nos quase com a intenção de não nos voltar a levantar de novo. Sem mais qualquer conversa, simplesmente adormecemos ali. Dormi naquela noite perfeitamente.

        De manhã, acordei. O sol começava a levantar-se no horizonte, com a sua luz a trespassar as árvores e a bater directamente na minha cara. Ah, que lindo momento que fora, ou pelo menos até eu notar que a Bianca não estava ao meu lado, como ela tinha ficado quando eu tinha adormecido. Achei que ela tivesse partido sim mim. Mas não.

        Qual não foi a minha surpresa quando me virei para os lados e vi a Bianca sentada, encostada a uma árvore.

        A parte má… Notei que ela estava a segurar na sua M4A1 enquanto estava sentada naquela posição. A segurar na M4A1 com o folding stock apoiado no chão e o cano apontado para a sua própria cabeça. As suas intenções eram claras. Ela estava com o dedo no gatilho, prestes a disparar. Ela não estava a exprimir qualquer reacção, apenas a olhar pelo cano. Fiquei ali, a olhar para ela e ela para o cano. Sem nada acontecer. Ela estava imóvel. Era como se ela já estivesse morta.

        Aproximei-me dela, lentamente. Não a queria assustar ao ponto dela pressionar o gatilho e realmente matar-se. Devagarinho, tirei-lhe a M4 das mãos. E do nada, comecei a chorar. Não tinha deitado uma lágrima desde o dia da queda do avião, mas agora estava ali, a chorar rios. Simplesmente não estava a ver o que fazer naquele caso. Era como se a minha vida tivesse morta. Como se eu já tivesse a viver a morte, e como se já não houvesse quaisquer esperanças. Desesperado, e sem saber o que fazer, simplesmente encostei-me á Bianca e deitei-me sobre o ombro dela. Ela estava sem qualquer emoção ou resposta, ainda a olhar para baixo como se a M4 ainda tivesse ali e ela a observar o cano. Mesmo que tivesse, ela não ia carregar no gatilho. Eu sabia que ela não era covarde para isso.

        -Nunca mais… Tentes isso… Na… Tua… Ou nossa… Merda de vida…- Disse-lhe eu, num tom lacrimoso. Olhei para a cara pálida dela e continuei: -… Mas eu sei que… Não o ias fazer, Bianca. Tu és forte… Acredito… – Mas não sei se ela ouviu sequer. Ela estava, no sentido literal da palavra, fria. Já tinha as minhas dúvidas se ela não estava morta e eu estava, na verdade, a encostar-me a um cadáver. Fechei os olhos… Como a tentar também morrer… Até que comecei a ouvir um som que não me era estranho.

        Uma espécie de “vap vap vap vap vap”.

        Ainda com algumas dificuldades, levantei-me e olhei para o céu. Estava a passar naquele momento, alguns poucos quilómetros de nós, um helicóptero!

        Nesse momento a Bianca acordou e sobressaltou-se daquele estado. Ambos começamos a gritar desesperados e inutilmente para que o helicóptero nos ouvisse. Obviamente não adiantou nada, mas uma boa notícia foi que assim que ele se afastou de nós o helicóptero baixou de altitude ao fundo… Entenda-se por claramente aterrar. Para o Norte.

        Não dissemos nada, simplesmente fomos a correr imediatamente em direcção ao Norte. Já com as nossas esperanças no topo e disparados, sem sentirmos qualquer cansaço ou sede, uma explosão de esperanças orientou-nos a finalmente, após tantas florestas e caminhadas, encontrar ali, em um enorme descampado, um vasto acampamento militar, onde estava o helicóptero pousado e soldados Americanos a andarem de um lado para o outro. Era ali. Conseguimos. Fiz tal como sempre, gritei “PLEASE DON’T SHOOT!”. E mesmo com os soldados a verem-nos armados, ao notarem nas armas baixadas e nas nossas roupas rasgadas, a reacção deles foi imediata: Logo vieram a correr, ter connosco e ajudar-nos. Um soldado, aparentemente um Lieutenant de bastante respeito, vem ter comigo e imediatamente pergunta-me:

        – You are from the plane crash?

        – Yes, we are survivors!

        – Ok, follow me! But why do you have guns?!

        – It is a long story! You can take the guns! Just please take us to the nearest Portuguese embassy! Or to Portugal immediatley would be better!

        Eu e a Bianca passámos-lhe as armas. Porém, no momento em que ela também ia tirar do bolso a Makarov dela, disse-lhe:

        -Psssst… Não entregues as pistolas. Finge que não tens nenhuma, se nos apanharem dizemos que nos esquecemos delas nos bolsos por acaso.

        -Ok, ok…

        Após algum tempo de esperarmos sentados, fomos levados para um helicóptero (Um Boeing CH-47), enquanto um homem nos disse:

        – Okay, we’ve contacted a Portuguese airbase in Sintra and we will take you there, but when you arrive we will have to ask you both some questions if you don’t mind…

        – No, It’s okay for us…

        Entrámos no helicóptero. Devo admitir, que é fixe ir sentado naqueles helicópteros! Apenas com alguns assentos vermelhos directamente alinhados de lado até á cabine, e com algumas caixas que eu não fazia a menor ideia do que continham lá por dentro.

        Fomos sentados lá, lado a lado, eu para o lado da cabine e ela para o lado da saída. Em pouco tempo o helicóptero levantou vôô, em caminho a Portugal. Durante o voo, a Bianca pegou em um livro que estava ao seu lado.

        -O que é isso? – Perguntei eu.

        -Fullmetal Alchemist. É um mangá Japonês que encontrei aqui ao pé de mim…

        -Hã? E o que estava aí a fazer?

        -Eu sei lá… Mas que se dane, agora vou ler.

        Fizemos grande parte da viagem com ela a ler o mangá e eu, sentado, a pensar na minha vida. Estava feliz por finalmente ter a minha segurança garantida, mas ainda a questionar-me sobre as crianças soldados e sobre todos os que matei. Parece que ao mesmo tempo que essas pessoas me queriam matar, as balas a atravessarem os seus corpos não me saíam da cabeça. Era como se eu tivesse com essa imagem presa em mim. Tão presas que eu as tinha de libertar de alguma forma. Foi aí onde eu não resisti e perguntei a um dos soldados que estava lá dentro:

        – Sorry, sir… Do you have a pen and some paper sheets?

        – Ok, just a moment…

        O homem chegou a uma mochila e tirou do seu interior uma caneta, arrancou algumas folhas de um papel de notas que ele tinha algures por lá.

        – Thank you, sir!

        – No problem!

        Foi aí onde comecei a escrever isto. E assim aqui acabo, a caminho de Portugal, neste CH-47. O que acontecerá a seguir? Teremos, eu e a Bianca, a nossa história contada em jornais e revistas como “Jovens sobreviventes do desastre da TAAG retornam em segurança a Portugal após enfrentarem tribo”? Iremos ás Tardes da Júlia contar para Portugal todos os mínimos detalhes como “Os grandes heróis que aguentaram 7 dias de sobrevivência perdidos em África”? Irá a minha história ser lançada em livro? Não sei. Aconteça o que acontecer, ao menos estou vivo. E aprendi uma lição. Não importa quem tem a arma mais potente ou quem tem o helicóptero que voe mais alto. O que importa é quem consiga pensar. E no meio de tiros, balas e mortes conseguir levantar-se desarmado e perguntar “Mas  o que é que vocês estão a fazer? Porque é que estão a morrer?” e conseguir fazer as pazes entre cada um e outro. E poder formar paz e confraternidade. Tornar os inimigos amigos. E tornar os tiros em abraços. E claro, o mais importante, fazer isso sem estar a preparar uma faca que entre pelas costas dos outros. Para mim esse é o que ganha na guerra.

        Enfim… É bonito sonhar por um mundo perfeito. Mas bah… Como é que vamos ter um mundo livre de guerras, sangue e “gente podre” se até os mais novos são forçados a premir o gatilho?

FIM

Younger Warfare- Capítulo 4: Uprising

Posted in Uncategorized on Junho 15, 2011 by henriquedematos

Após algum tempo, já estavam todos a dormir. Até conseguia ouvir os grilos do lado de fora da base. Pus o meu plano em prática e saí da cama devagarinho, sem alertar ninguém, no escuro dos dormitórios, apenas com as luzes dos corredores (Das poucas luzes eléctricas que a base tinha) acesas. Consegui orientar-me até ao corredor e logo segui em direcção ao refeitório. Ao chegar, ao refeitório, e já pronto a entrar na cozinha, começo a ouvir passos a dirigirem-se para o refeitório. Eu estava completamente assustado e não sabia para onde ir. No desespero total, decidi descobrir se o que os videojogos me tinham ensinado era verdade e, como a luz vinda do corredor não era suficiente para iluminar totalmente o refeitório, escondi-me em um dos cantos do refeitório próximo da porta para a cozinha. Porquê? Porque pelo facto de haver um enorme pilar por ali, era criada uma sombra directamente para aquele canto, onde se eu estivesse ali bem encostado, pelo menos para o guarda que vinha, fiquei praticamente invisível.

        Obrigado, San Andreas e Manhunt, os videojogos onde aprendi isso!

        Enquanto eu ficava escondido a observar o guarda, não uma criança e sim um adulto, notei que ele abriu a porta da cozinha e entrou no seu interior. Escondi-me atrás da porta no lado do refeitório, e observei. O guarda de imediato acendeu a luz da cozinha no interruptor e viu a Bianca encostada a uma bancada, á minha espera. Avançou para ela e começou a berrar e a ameaçá-la com os seus punhos. Ela tentou fugir, respondendo qualquer coisa como “No, no, no…” às coisas incompreensíveis que o homem dizia. O homem aproximava-se dela ainda mais e agarrou-a, empurrando-a contra a parede. Não entendi se ele queria violá-la ou espancá-la, mas de uma maneira ou outra aproveitei-me do facto de que ele não tinha notado na minha presença.

        E comecei precisamente naquele momento por libertar a minha raiva.

        A minha raiva por tudo isto.

        A minha vida tinha chegado a um ponto ridículo. E estava na hora de começar a tratar da saúde de quem a levou a esse ponto.

        Mal eu sabia que esta mera maneira de libertar a raiva ia ser apenas o começo.

        Furioso, invadi a cozinha enquanto o soldado empurrava a Bianca contra a parede e apanhei o primeiro objecto que me apareceu pela frente. Era um rolo da massa! Sim, eles tinham um rolo de massa! Não faço a menor ideia para quê, se só serviam sopa, peixe e pão naquela base, mas serviu no momento.

        Peguei nele e corri em direcção ao soldado… E quando ele olhou para trás, obviamente viu-me a vir na sua direcção, mas já era tarde. Levou com uma bela “rolada” na cara. Não posso ter a certeza, mas dado a raiva que tinha e a força que usei, estou muito certo que devo-lhe ter, pelo menos, rachado o crânio. Dei-lhe com tanta força que ele imediatamente caiu no chão, com a cara toda lixada e cheia de sangue.

        A Bianca olhou para mim e olhamo-nos por um breve momento. Mais algum curtíssimo período de tempo de olhares frios, com a diferença que aqui foi ela a primeira a falar:

        – Não precisava disso, eu já estava pronta caso esse gajo viesse.

        E mostrou-me uma enorme faca (Sim, uma faca de cozinha, mas uma daquelas enormes que se usa para cortar bois ao meio) que tinha ocultado.

        – Bom, agora está tudo bem… – Disse eu.

        – Shhhh, desliga as luzes e segue-me!

        Desliguei a luz.

        – Agora fica quieto e esconde-te do lado da porta…

        Fomos, no meio do escuro, cada um para um lado da porta da cozinha, eu no direito e ela no esquerdo. Nesse momento, começam-se a ouvir montes de passos de guardas. O ruído e os gritos do soldado a ser morto despertaram a atenção geral dos dormitórios… E claro, depois disto, da base inteira. Entrou um soldado, armado com uma Makarov (Uma daquelas velhas “pistolinhas” Russas), pelo escuro adentro. Apenas vendo as silhuetas formadas pela luz que vinha reflectida do corredor, a Bianca avançou para as costas dele e de uma maneira simples e efectiva espetou-lhe a faca nas costas, matando-o e fazendo a Makarov cair no chão. Enquanto já vinham pelo corredor mais outros dois guardas também armados com Makarovs, ela passou-me a Makarov que estava no chão, escondeu-se atrás do balcão e disse-me:

        – Tu é que és o“engenheiro” de armas! Acaba tu com eles!

        – O quê? Esfaqueaste um gajo a sangue frio e não consegues carregar num gatilho?

        – Prefiro deixar essa parte para alguém com mais experiência! Agora dá-lhes!

        Saindo de cobertura, atirei-me da porta da cozinha para trás do pilar do refeitório. Os guardas, ao verem-me, imediatamente começam a disparar, errando os tiros. Felizmente eram “ceguetas”, pensei… Enquanto um continuava a disparar contra o pilar o outro aproximou-se ameaçador a correr para ver se me apanhava desprevenido, mas assim que o vi, antes que ele pudesse fazer pontaria, apontei-lhe eu a minha Makarov, premi o gatilho e disparei. Só ouvi “bam!” Atingi-o em cheio no peito, fazendo uma enorme mancha de sangue. Enquanto isso, o outro provavelmente ficou sem balas de tanto acertar no pilar para me assustar e já batia em retirada. Apercebendo-me disso saí de cobertura, apontei-lhe a Makarov e dei-lhe um tiro que não faço a menor ideia onde o atingiu, mas foi o suficiente para o fazer ficar deitado sobre uma poça de sangue. Parecia um videojogo na minha cabeça. Nenhum dos meus inimigos parecia real. Pelo menos sou bom em alguma coisa.

        – Podes sair daí, vamos – Disse eu á Bianca. Ela saiu de trás do balcão a segurar na faca mais ou menos como o Anthony Perkins no Psycho. Estava, embora não vou admitir, querida por um lado (Ahhh, uma menina a segurar uma faca como uma psicopata! Que linda!) por outro lado estava assustadora. Ao atravessarmos o refeitório para irmos para o corredor, perguntei-lhe:

        – Uma faca? Nunca ouviste dizer para não levar uma faca para um tiroteio? Se eu fosse a ti apanhava uma dessas Makarovs!

        – Bem, não há nada como variar…

        Ela guardou a faca e apanhou a Makarov que tinha caído ao seu lado. Claro que aquele tiroteio já colocara em alerta toda a base. Já se começavam a ouvir mais soldados a vir. Nos outros dormitórios já se começavam a ouvir crianças a acordar e agitação geral mas eu queria era precisamente ir ao NOSSO dormitório para tentar salvar algumas vidas antes da base inteira entrar em uma guerra colossal.

        – Então, qual é o plano? – Pergunta-me a Bianca – Simplesmente metemo-nos num jipe e piramo-nos daqui?

        – Calma! Isso vem depois! Agora tenho uma coisa mais importante para fazer! Vem comigo!

        Entrámos no dormitório, onde estavam todos assustados, uns aos berros e outros a esconderem-se debaixo dos lençóis como se tudo fosse apenas um pesadelo. Fechei a porta, e enquanto a Bianca barricava-a com um armário, chamei o Jawaad:

        – JAWAAD! DIZ A ESTES IDIOTAS QUE SE METAM EM ORDEM e diz-lhes o que eu te vou dizer!

        Jawaad berrou para que todos ficassem quietos, não com grande eficiência, mas só o suficiente.

        – Oiçam! -Disse eu, virado para eles – Vocês não estão a lutar por rigorosamente nada! Estão a morrer pelas causas mais ridículas de sempre e a criarem devoções falsas por coisas inexistentes! É isto que vocês querem? Viverem sem terem a certeza de que verão mais uma vez o nascer do sol?

        Jawaad repetiu as minhas palavras para eles. Continuei:

        – Eu sei que isto pode soar impossível para vocês, mas lá fora existe uma vida de oportunidades! Existem sentimentos! Existe uma vida sem medos e receios! Uma vida… Onde vocês SÃO LIVRES em vez de terem que lutar por uma “liberdade” que nunca vos será servida! Então? Querem continuar a morrer ou querem ao menos tentar sair daqui para encontrarem essa outra vida?

        Jawaad, após repetir as minhas palavras, uns ou outros contestaram umas cosias quais queres, que o Jawaad me teve o prazer de “traduzir”:

        – E então, se fôssemos fazer uma batalha e fugir daqui, onde conseguimos munições para as nossas armas?

        – Espera aí…

        Tirei a minha Makarov do bolso e espetei um tiro no meio do cadeado de correntes que estava em volta das portas do roupeiro que tinha usado para fazer a barricada. Assim que abri as portas do roupeiro, todos viram o que estava no seu interior: Montes de balas e carregadores cheios para as mais diversas armas, desde clipes para as Makarovs até montes de magazines para as AKs.

        – Levem tudo o que puderem! – Dizia eu, enquanto ia para ao pé da minha cama para ir buscar a minha AK-47 – Agora vamos, camaradas! Vamos espalhar o inferno e vingarmo-nos destes filhos da p***! Quem está comigo?

        É… Infelizmente a realidade não é como aparece no filme “Avatar”, onde basta dizer coisas motivadoras a um bando de primitivos tribais para eles imediatamente passam a seguir-te. Eu podia ter toda a razão… Mas quando o Jawaad lhes repetiu a mensagem final, e eu esperava ver todos a levantarem as suas AKs no ar e a gritar “Huya!”, na verdade apenas se ouviram um ou outro a reclamar. O Jawaad virou-se para mim e disse:

        – Eles não querem ir. Isto é a casa deles. E também a minha. Lamento, mano.

        Já conseguia ouvir os soldados do outro lado a tentar arrombar a ponta do dormitório. Felizmente era de metal, mas mesmo assim eles estavam quase a conseguir abrir. Enfiei a minha magazine na AK, guardei mais algumas mags nos bolsos e meti alguns carregadores para a Makarov caso eu necessitasse de uma “arma de apoio”.A Bianca pegou logo em um monte de carregadores de Makarov e guardou-os, naquele momento onde todos olhavam para nós enquanto estávamos praticamente a pilhar o armário das munições. Depois de estarmos prontos, e prestes a abrir a porta á Scarface para enfrentar quem tivesse lá fora á nossa espera ou morrer a tentar, recuei um pouco e olhei atrás para eles, que mesmo decididos, deu para ver que ainda estavam a pensar no que eu dissera…

        – É para isto que vieram ao mundo? Para seguirem ordens de estas pessoas… podres? Ou, como se diz em um inglês estiloso e com mais sentido que vocês não conseguem falar…“Rotten people”?

        Sem dizer mais nada, tirei o armário da frente e chutei a porta sem tem piedade ou medo do que tivesse no outro lado. Comecei a disparar assim que a porta se abriu. A disparar para todo o corredor. Não era que fosse completamente á toa, sem grande surpresa estavam lá fora soldados adultos prontos e armados com BARs e Makarovs… Mas nem isso foi suficiente para parar a minha raiva, que se exprimia nos tiros a voarem para todas as direcções de tudo o que se metia no meu caminho. Não estava a ver o que estava a matar, simplesmente carregava no gatilho e fazia um spray por todo o lado no corredor. Já a Bianca foi mais táctica: Ficava atrás, a espreitar pela mira da Makarov para ver quais inimigos eu falhava e ela atingia. Após gastar uma magazine inteira e ela um clip inteiro, limpei o corredor de inimigos. Digo, não que estivesse precisamente “limpo”,com as paredes, antes brancas, agora “redecoradas” com sangue e buracos de balas, mas ao menos eles “ficaram limpos”. Fizemos reload. Ia-mos a prosseguir pelo corredor, com os nossos olhos focados na mira. Era curioso… Depois deste tiroteio para sair do dormitório, agora parecia que do nada estava tudo silencioso, sem aparentemente ninguém por perto. Claro que eu não confiava nesse silêncio. Foi no meio desta ausência de som aterradora que a Bianca, ao olhar por uma janela, gritou:

        – BAIXA-TE!

        Imediatamente atirámo-nos ao chão, enquanto montes de tiros vinham da janela. Lá de fora, estavam a caminhar montes de soldados, tanto crianças como adultos, em direcção aos dormitórios. As balas, vinda do exterior, batiam na parede e faziam ricochete por todo o corredor, dando em uma explosão de balas a voar por todos os lados.

        – Apanha a BAR!- Gritei eu á Bianca.

        – O que raios é a “bar”?!

        – A Browining Automatic Rifle!

        Ela olhou para mim meio á toa, ainda sem perceber o que era uma Browning. Tive que “refinar”:

        – UMA DESSAS ARMAS GRANDES AO PÉ DAQUELE GAJO ALI MORTO! – E apontei para a BAR que estava ao pé do cadáver de um dos que tinha sido morto ao sairmos do dormitório. Ela, agachada no meio da confusão de balas a voarem por todo o lado, apanhou a BAR, segurou nela e pôs-se a disparar pela janela para o exterior. Enquanto ela ficava a disparar para lá para fora, fui caminhando, praticamente a rastejar pelo chão, para evitar os tiros, até ao fim do corredor, onde ia dar a outro corredor (Este já sem luz) e esse corredor onde, supostamente, ia dar á garagem da base.

        – Merda! Bazooka!- Grita-me a Bianca do nada.

        Levantei-me e vi um míssil, seguido de um rasto flamejante, a vir na nossa direcção. A nossa reacção foi imediatamente correr para o outro corredor sem luz, enquanto o míssil atingira o corredor onde tínhamos estado. A explosão não foi lá grande coisa, mas quando virei para trás apercebi-me que foi o suficiente para pegar fogo ao corredor dos dormitórios. Prontos, eu com a AK e ela com a BAR, fomos caminhando pelo corredor (Este que felizmente não tinha janelas) até ao fim, para irmos á garagem… Até notarmos na porta á nossa esquerda.

        – Espera, Bianca! Lembras-te deste lugar? Se não me engano, atrás desta porta está a“sala de reuniões” onde fomos julgados por aquele velho estúpido!

        – Sim, acho que também era aí… E depois? Vamos lá, temos que chegar logo á garagem antes que venham mais!

        – Não! Podem vir mais soldados pela sala de reuniões…

        – Ok, construímos outra barricada, depressa! Arrasta aquele sofá…

        – … E pode ser que indo pela sala de reuniões a gente encontre o gajo e lhe possamos dar o troco.

        – O quê?

        – Ele insultou-te. Não sabia que eras assim tão boazinha a aceitar ofensas…

        – Quando a ofensa vêm de um gajo que está defendido por um exército enorme, provavelmente ele mesmo também está armado e tenho coisas mais importantes para fazer, como fugir daqui a tempo… Obrigado, mas prefiro que os outros idiotas me ofendam.

        – Fica aqui se quiseres, mas caso ele esteja cá eu quero ter uma conversinha com ele.

        Sem ouvir o que mais ela pudesse argumentar, abri um pouco a porta. Estava na sala de conferências montado um rádio (Não um rádio super moderno, e sim um daqueles rádios dos anos 40 que os Aliados usavam para comunicar com as bases, mais ou menos como no Allo Allo) e o tipo encontrava-se sentado em um banco, a falar para o microfone do rádio, provavelmente pela primeira vez a falar sem ser não a gritar, mas sim notavelmente em desespero. Não percebi se era desespero deste enorme tiroteio provocado por dois “meros pirralhos” ou se estava-se a passar qualquer outra coisa, mas certamente ele estava a pedir ajuda a alguém pela rádio. Ao lado dele estava sentado o Thulani, com cara de preocupado, atento no outro. Há, logo os dois mesmo a jeito.

        Qual foi a primeira coisa que eu fiz? Dei uma de SWAT e chutei a porta a gritar “Freeze! Put your hands in the air”. Ambos ao verem-me, e em seguida á Bianca que entrou ao meu lado com a BAR apontada para eles, levantaram-se e puseram as mãos no ar. E adivinhem o que estava na sala: um arsenal de M4A1s e M1911s, juntamente com um monte de granadas. As armas que eu mesmo capturei, estavam ali apenas para a mera defesa pessoal deles. Sim, era para ali onde tinha ido todo o equipamento da Colt.

        – So… A riot. Very clever coming from you, boy – Disse-me o homem.

        – What? Did you really thought I was gonna accept your orders and the orders of your idiot friend over here?-Pergunto eu apontando para o Thulani.

        – Oh boy, I know you would not.

        – FOR THE LAST TIME SINCE WE LAST MET… MY NAME IS NOT BOY! IT IS FELIX, YOU F***** PRICK! Get the name right or I will blow your f**** head!

        – Would it matter? You are going to do it anyways, won’t you? You are so furious and so angry that you just can’t stop the rage inside you. You WILL kill me, no matter what I say. But why would I blame you? That means we succeeded. When you got here, you were, like, how do they say in American? Oh, yeah, a pussy! Exactly that! You were afraid. You were nothing. But it looks like we succeeded and turned you into a killing machine. You are only going to kill us both because we made you able do it, isn’t that true? Oh, and by what I’ve heard out there, it looks like your“wife” over here learned the same! Hah! The lesson gets passed from bitch to bitch! So? Will you show me what we’ve teached you and kill me? Proving us how useful we were?

        Enquanto ele falava, o Thulani foi-se chegando atrás discretamente para apanhar uma M4A1 que estava em cima da mesa, mas no exacto momento em que a agarrou, a Bianca agiu da maneira mais eficaz: Matou-os aos dois imediatamente com uma rajada de balas em um piscar de olhos. Tal como se diria em Pokémon: “É super efectivo!”.

        – Boa… –Disse-lhe eu. – Podíamos ter morrido os dois!

Sem me ligar, ela aproximou-se do Thulani, atirou a sua BAR para o chão e agarrou na M4A1, metendo também um ou outro carregador no bolso. Depois olhou para mim. Mais uma vez, um olhar frio, mas por outro lado, surpreendente. Por detrás dos olhos dela conseguia ver um sorriso suspenso. Era um olhar muito mais místico do que propriamente terrorífico. Era como se ambos tivéssemos acabado de apercebermo-nos de algo ao mesmo tempo. E como se ambos tivéssemos a partilhar mais sentimentos do que nós mesmos soubéssemos.

        – Vamos? -Disse-me ela, a fazer o cocking na M4.

        Enquanto isso, ouve-se uma porta a ser no corredor. Eram mais guardas e soldados que vinham desde o fundo do corredor, armados. Certamente não era seguro continuar a correr o corredor para a garagem enquanto todos estavam a vir por lá. Imediatamente agarrei uma granada, passei-lhe outra e disse:

        – Atiramos as granadas ao mesmo tempo aos 3… 2… 1…

        Já vinham os inimigos quase a chegar á sala de reuniões, quando tiramos o pino da granada e as mandamos pela porta fora, a rolarem pelo corredor abaixo onde estavam os outros… Acredito que seja escusado descrever o que aconteceu. Mas caso seja necessário algo para referência, acho que basta dizer que cheguei a ver um braço a voar pelo corredor quando aquelas “meninas” explodiram. Saímos pela porta, ela na frente a olhar para um lado e para o outro para ver se não haviam mais inimigos. Ao olhar para o lado onde tinha explodido a granada, devo dizer que adorei a reacção dela:

        – Yuck… Que nojo…

        Não é que tenha sido á toa, os cadáveres deles estavam praticamente espalmados (Ou bom, pelo menos os pedaços dos cadáveres, claro) contra as paredes e contra o chão. Não eram poças ou “nódoas” de sangue como eu tinha visto até agora, eram verdadeiros borrões de sangue que cobriam as paredes do corredor. Eu e a Bianca seguimos pelo corredor, com a arma apontada sempre em frente para a garagem. Ao chegarmos á porta da garagem, eu mesmo me candidatei:

        – Vou á frente para ver se não está ninguém.

        – Espera! Eu vou contigo!

        – Hã? Desde quando tu queres saber se eu morro ou não?

        -Ya, até me importo… Dado que se não fores tu não tenho mais ninguém para confiar no meio disto…

        – Ok, então fazemos os dois um breach, pode ser? Chutamos a porta, entramos a apontar as armas com estilo e disparamos para tudo o que mexer-se dentro da garagem?

        – Soa bem!

        – Vamos lá!

        Íamos prestes a arrombar a porta, quando eu disse:

        – Espera… Mas tu não me disseste uma vez que não precisavas de ninguém para confiares?

        – Tu sabes… Quanto estamos a lutar pela causa e a tentar escapar do mesmo lugar, sou capaz de abrir algumas excepções. Agora chega de blá blá blá, vamos!

        Dado que era uma porta dupla, reagimos de maneira efectiva e cada um chutou o seu lado da porta. Entrámos na garagem, com as armas apontadas. Mas nada. Mesmo com as luzes estando desligadas, deu para aperceber-me de que a garagem estava vazia. Wow, durante este tempo fiz mais breaches de portas vazias do que com pessoas lá dentro. Carreguei no sensor que estava ao meu lado para acender a luz e consegui ver a garagem inteira: Era bastante grande, com dois jipes estacionados lado a lado, cada um com metralhadoras no topo, e uma enorme porta que mais parecia a porta de um hangar, felizmente fechada. De resto havia apenas na garagem uma pequena porta traseira que ia dar ao exterior, uma secretária com alguns mapas e esquemas e alguns pedaços de ferro velho e maquinaria velha espalhados, nada mais. Cheguei-me ao pé dos jipes e perguntei:

        – Hey, Bianca! Sabes conduzir uma destas cenas?

        – Achas? Nem temos idade para tirar carta de condução! Ou vais dizer-me que sabes?

        – Bem, eu já joguei alguns jogos de corrida com volante, pedais e mudanças na PS3… Sempre que disseram que o Need for Speed tinha um handlingrealista… Acredito que posso tentar.

        – Ok, isto sim, é uma loucura total.

        – Pode ser… Mas vez mais alguma maneira de escaparmos? Ao escapamos ou morremos a tentar! Ok, vai-te metendo neste jipe aqui, tu ficas na metralhadora. Eu vou ali ao botão abrir a porta da garagem e volto logo para o jipe para conduzirmos daqui para fora. Prepara-te… Hey, espera aí!

        Fui á secretária e abri algumas gavetinhas debaixo dela. Na terceira, encontrei uma bússola e meti-a no bolso.

        – Exactamente o que eu preciso!

        Enquanto isso, a Bianca começou a remexer por curiosidade em alguns papéis que estavam em cima da mesa. Foi aí que achou um papel em particular interessante.

        – Hey, o que é isto?

        Olhei para o papel que ela tinha na mão. Era um esquema de uma AA (Anti-Aircraft) Gun, ou seja, basicamente uma Anti-Aérea, daquelas que servia para abater aeronaves.              Parecia ser enorme, bastante maior que o tamanho de uma AA gun vulgar, um pouco maior que um tanque.

        – Interessante… Mas porque é que eles têm aqui esquemas de uma destas coisas se não têm nenhuma por aqui?

        – Sei lá… Hmmm, o que é isto?

        Ao lado desse desenho estava uma pasta. Abri a pasta e para minha surpresa estavam lá dentro não só mais designs da AA Gun, como também imagens dela mesma construída!

        – Uau! Mas como é que eles escondem uma coisa deste tamanho…

        Observando uma redução da planta da base que vinha dentro da pasta, aí sim entendi como eu ainda não tinha visto a AA Gun. Aparentemente a AA gun encontrava-se situada POR DETRÁS dos dormitórios! Depois examinei a pasta com os ficheiros da AA gun. Foi aí em que notei que havia uma capa lá dentro. Uma capa intitulada como“First test” e mais algumas coisas estranhas escritas em baixo que eu não compreendi. Só fiquei mais interessado pelo carimbo enorme que estava estampado na capa: “MISSION SUCESSFUL”.

        – Hã? Mas eles realizaram um teste desta AA gun com sucesso? – Perguntei-me a mim mesmo em alto.

        – Estás maluco, Félix? Isso é impossível! Até eu, que não percebo nada de armas, sei que uma dessas coisas deve fazer um barulhão dos diabos quando dispara! Batalhas rivaisunderground entre “tribos” ainda está OK, mas não achas que se disparassem uma coisa destas para o céu eram logo detectados?

        Foi aí que chegámos á conclusão óbvia. Á coisa mais óbvia de sempre.

        O avião da TAAG com a asa cheia de buracos que pareciam “balas de uma pistola gigante”…

        A especulação das notícias de o avião ter sido atingido por algo…

        O Thulani ficar extremamente preocupado com os Americanos irem investigar o lugar da queda…

        E agora descobrimos que a base tinha uma arma anti-aérea guardada.

        Bom, acho que tudo isso explica a operação que tínhamos feito de dia. Evidentemente, para testar o novo “brinquedo” deles, o Thulani deu, pelo menos, a ordem para abrir fogo no avião no dia em que caiu o avião e obviamente agora devia estar cheio de medo que os Americanos descobrissem a sua parte nisto tudo. Já tinha pensado nisso antes, mas sempre pensei “Que teoria mais absurda! Como ele faria isso?”.Mas agora que vejo que eles têm uma AA gun… Tudo passou a fazer sentido.

        Eu e a Bianca ficámos caladas por um momento.

        Depois deu-me um “One of my turns” e do nada empurrei a secretária do avesso para baixo. Em seguida, peguei na pasta, com as coisas lá dentro, e atirei-as contra as paredes.

        – FILHOS DA P***! MATARAM OS MEUS AMIGOS!

        A Bianca reagira a esta descoberta a dando um enorme “facepalm” e metendo-se com a cabeça descansada sobre os braços em cima do jipe. Virei-me e disse:

        – Mudança de planos.

        -… O quê?

        – Olha na planta, parece haver outro portão ao pé da AA, e ali com um estacionamento. Pode ser que tenha algum jipe lá…

        – E então o que estás a sugerir?

        – Estás a ver a anti-aérea na planta? Nós caminhamos para…

        Do nada, começam-se a ouvir barulhos a virem da porta do corredor. Estavam a arrombar a porta. Peguei na minha AK, passei-lhe a M4 e disse-lhe:

        – Rápido! Segue-me!

        Saí a correr pela porta das traseiras, com a Bianca atrás de mim. Fomos dar ao outro lado da base, onde não havia quase ninguém a não ser um ou outro tipo a guardar o portão e uns que passavam de um lado para o outro da base, ainda à nossa procura. Havia realmente por lá um jipe parado, e um só. E logo a alguns metros de nós, em cima de uma plataforma montada ao pé de onde estava o jipe, encontrava-se nada mais do que a própria anti-aérea, com algumas “balas”(Pareciam balas de armas comuns, só que pontiagudas e enormes). Felizmente estava bastante escuro, portanto foi bastante simples chegar á anti-aérea sem sermos vistos. Ao chegarmos lá, subi para o acento que ficava na parte traseira do canhão e servia para comandar aquilo. A Bianca sussurrou:

        -… Mas o que é que raios tu vais fazer?

        – Vou fazer o segundo teste desta AA por eles. Agora mete essa bala no compartimento ai atrás!

        – Onde?

        – Nesse tubo grande! Enfia a bala aí e fecha esse compartimento!

Ela assim fez. Meteu a bala, fechou aquilo. Em seguida, fiz pontaria para o portão e carreguei numa espécie de “alavanca” que disparava. Foi simples… O portão explodiu totalmente! Tanto o portão como os guardas do portão e grande parte do muro em si em volta foram dizimados! Claro que isso chamou bastante atenção, tanto que quando dei pela conta já vinham aí mais soldados a saírem da base e a começar a disparar para a anti-aérea. Pois, são realmente balinhas de AK-47 que vão destruir aquela cena…

        – Óptimo! Mete-me outra!

        Ela meteu mais uma daquelas “mega-hiper-balas” e foi tudo para cima dos soldados, como também para uma parte da própria base. Quando dei pela conta, já a base em si estava com a “área administrativa” a cair aos pedaços depois desta. Saí da AA e disse:

        – Excelente! Não está mais ninguém! Agora vamos para o jipe! ‘Bora! Rápido!

        Corremos o mais depressa que podíamos para o jipe. Porém, quando íamos prestes a entrar… Qual não foi a nossa surpresa quando um bando de soldados surge do meio dos escombros de uma das partes despedaçadas da base e começa a abrir fogo! Literalmente centenas deles! Atirámo-nos para o chão e escondemo-nos atrás de um pequeno muro.

        – Merda! -Disse a Bianca – Se nos levantarmos levamos logo com um tiro! O que fazemos?! Temos que chegar ao jipe!

        – Se calhar se conseguirmos voltar á AA…

        Como por pura e irónica coincidência, nesse mesmo momento surge um míssil vindo de uma bazooka que explode de vez com a AA Gun.

        – … Deixa lá! Fogo! Temos que fazer qualquer coisa! Pensa!

        – Pensar? Como?! Achas mesmo que agora é o tempo ideal para “pensar”?

        Eles disparavam para o muro, que se ia pouco a pouco desfazendo. Estávamos cada vez mais descobertos! Foi provavelmente uma das piores situações que eu tive: Sabíamos que se nos levantássemos para disparar de volta éramos logo mortos, se fugíssemos para onde quer que seja éramos logo mortos e ao mesmo tempo sabíamos que se ficássemos ali parados em breve seríamos mortos!

        – Hey…-Disse-me ela – Se calhar conseguimos… Se rastejarmos baixinho… Chegar ao jipe sem eles notarem! Depois pode ser que a gente consiga arrancar!

        – É isso ou nada. Vamos!

        Abaixados discretamente, fomos rastejando até ao jipe. Devagarinho… Até que no meio disto aparece uma granada a voar para ao pé de nós, para lixar tudo de vez!

       Só tínhamos uma escolha para sobreviver da granada: Fugir a correr dali, o que implicava ficarmos expostos. E era levar com a explosão da granada ou levar com os tiros… E claro que preferimos levar os tiros, quando ambos automaticamente corremos para o jipe, a acreditarmos nós, no meio de montes de balas a voar para cá… E a granada ficou para trás e explodiu, felizmente sem nos magoar.

        Mas o que ia importar? Nós morremos de uma maneira ou outra pelas balas, certo?

        Foi o que eu pensei assim que entrei á pressa no jipe. Até me questionei por um momento:“Como estou a conseguir fazer isto se ESTOU MORTO?!” até eu aperceber-me que estava bem vivo e simplesmente já não vinham mais balas na nossa direcção.

        Como um milagre, olho para trás e o que vejo? O Jawaad e os outros, que tinham ficado no dormitório, armados com as AKs, a meterem-se em um enorme tiroteio contra os outros adultos que nos estavam a tentar impedir de escapar. Foi aí que notei em uma enorme explosão ao fundo da base…

        E em outra…

        Tinha resultado.

        Consegui virá-los, ou pelo menos a maioria, contra os seus próprios “donos”.                  Claro, os adultos estavam muito mais bem armados, mas dado que por cada adulto naquela base existiam para aí 10 crianças… Escusado era dizer quem estava a tomar a vantagem no meio daquela batalha.

        Aproveitando-me da confusão gerada por aquele enorme tiroteio que agora felizmente já não era só nosso, e com a Bianca a bordo, meti prego a fundo e acelerei, ainda que a conduzir extremamente mal, pelo enorme buracão no muro onde antes fora o portão, e saí daquele lugar. Pelas estradas entre a selva parti, no jipe, a usar a velha técnica de ir a acelerar pelas estradas rectas e devagarinho pelas curvas, enquanto a batalha épica pela liberdade se travava atrás de nós. O jipe era tão mal feito que nem tinha retrovisores, mas pelo barulho dava para notar que quem quer que seja que estivesse a ganhar a vantagem, estava a massacrar completamente o inimigo.

Younger Warfare- Capítulo 3: Dias de trabalho

Posted in Uncategorized on Junho 15, 2011 by henriquedematos

Dia seguinte: Acordar às 9 da manhã para recebermos novas instruções. Seguimos para a “sala de conferências” onde nos sentámos no chão e apareceu Thulani. Obviamente, ele falava na sua estranha língua que eu não compreendia de lado nenhum. Parecia-me até mais calmo do que a maioria das vezes. Assim que ele esticou uma enorme planta desenhada á mão e pendurou-a num quadro, entendi logo: Ele estava a congeminar um plano. Após pegar em uma vara e apontar uma coisa ou outra na planta, fomos mandados de volta aos dormitórios. Inicialmente não entendi porquê, mas assim que os outros começaram a mexer nas armas deles, percebi: Era para irmos buscar as nossas armas. Fui buscar as minhas e alguns“mecos” trouxeram-nos caixas com munições de 7.62 X 39 para metermos no carregador. Meti as balas nos 6 carregadores que me ofereceram (Bastantes carregadores, devo dizer), meti 1 deles na arma (Duh! óbvio) e lá consegui enfiar os outros nos meu bolsos, 3 no direito e 2 no esquerdo. Ao irmos depois dos dormitórios para a saída, aproximei-me do Jawaad e já que ele parecia ser a única pessoa por ali que falava Português, perguntei-lhe:

        – Então,“mano”… O que se passa?

        – Descobriram lá um armazém dos Gewelddadiges a uma beca daqui.

        -Ou seja.. Isso quer dizer que basicamente vamos entrar lá, ver o que há no armazém e irmos embora, certo?

        -Ya, basicamente isso.

        -Ou seja, isso quer dizer que nada de tiroteios, ou mortos, ou nada, certo?

        -Xééé… O Thulani disse-nos que podia haver por lá dois ou três sniper a guardar a cena. Não temos a certeza, portanto não deve ser lá muito pacifista, não.

        Bem, eu tinha ordens para ser o “homem” da frente (“Homem” entre aspas, pois eu certamente não sou uma mulher… Mas não sei se tenho idade para ser chamado de homem, talvez rapaz da frente…), o que significa que se os snipers nos vissem, eu certamente era logo o primeiro a levar um tiro.

        Segui-os para ver onde eles iam. Entrámos para um daqueles camiões velhos, como os da 2ªguerra mundial, isolados com uma espécie de “lençol” para cobrir a parte de trás, como os que se usavam para transportar soldados para o campo de batalha. Fomos para esse camião, enquanto alguns dos outros “soldados” iam para outros iguais. Um adulto obviamente meteu-se no acento do condutor e levou-nos por uma estradinha, não muito aberta, que saía das traseiras da base, para o tal armazém. Pelo caminho, eu quase que me ia metendo a rezar. Porque honestamente, estava com mais medo daquilo do que um gato com medo de água. Ia ter que me enfiar por um armazém, provavelmente guardado por capangas armados… Parecia ser uma maneira fácil e ingloriosa de morrer.

        Qual é o propósito da vida destas pessoas? Morrer apenas para poder investigar?

        O camião parou alguns quilómetros depois. O condutor parou e apontou-me para o lugar da base. Com todos a seguirem-me, caminhei para onde o condutor apontou. Estava cheio de medo. Fui devagarinho entrando pela floresta, até encontrar um enorme descampado onde se via o tal armazém. Não era muito grande, mais ou menos do tamanho de um estábulo de uma quinta. Porém, tinha algumas janelinhas… Janelinhas onde bem podia estar escondido um sniper. Nesse momento pensei: “Que se lixe, se vou morrer ao menos morro com um tiro que é rápido”. Virei-me para trás, fiz-lhes sinal para não fazerem barulho e caminhei, abaixado, para ao pé da porta de entrada do armazém. Felizmente, e surpreendentemente, continuou silêncio total. Nem nenhum tiro com silenciador vindo das janelas ou sequer barulho de alguém a mexer-se lá dentro. Nada. Encostei-me á porta e fiz no melhor estilo de Call of Duty, para descobrir se o que esse jogo me ensinou me deu jeito na vida real: Breach. Chutei a porta e, de arma apontada, entrei no armazém. Olhei para todos os lados, apenas a mexer a cabeça e a arma, com os meus olhos na mira. Olhei um pouco á volta. O armazém não tinha lá dentro ninguém. Fui á porta e disse, não em tom muito alto mas em tom suficientemente alto para eles perceberem, “Venham”, e fiz um gesto com a mão para eles virem. Como não houve nenhum tiroteio ou nada do género, ficou evidente para eles que não estava lá ninguém e eles entraram todos pela porta adentro no armazém.

        O armazém, embora estivesse escuro (Com o interior apenas iluminado pela luz que vinha do exterior pelas janelas), uma coisa deu para ver: Estava cheio de caixas de cartão. As caixas diziam “From USA” e tinham o lógotipo da Colt, uma das principais fabricantes de armamento dos Estados Unidos. Abrimos as caixas e sem grande surpresa, estavam cheias de M4A1s e M1911s. Só armamento topo de gama da Colt. No momento em que eu peguei em uma das M4A1 para a examinar, o Jawaad entra dentro do armazém e diz-me:

        – Deixei ali alguns dos meus tipos a guardar a porta. E agora, pah?

        – Então, agora acho que esses Gewacoisos andam a colaborar com os Americanos. Olha-me para estas armas… É tudo da Colt, obviamente que não são Kalashnikovs como as vossas.

        – Como as nossas, tu quéres dizê?

        – Sim, isso. Mas bem, se eles têm armamento da Colt então só pode significar duas coisas: Ou os Americanos andam-lhes a vender armas ou então estas são roubadas, que cá para mim é o mais provável. Bem, tanto faz. Então, o que devemos fazer…

        Do nada, começam-se a ouvir montes de tiros vindos lá de fora. Um entra a correr cá para dentro e a gritar:

        – Gewelddadiges! Gewelddadiges!

       Todos nós abaixamo-nos por detrás das caixas. Espreitei um pouco por cima e não vi ninguém a entrar pela porta, mas vi os cadáveres dos que tinham ficado lá fora no armazém a sangrar no chão. Abaixado, fui para o lado da porta esconder-me e ia prestes a afastar-me de cobertura um pouco… Quando um tiro passa de rasteiro perto de mim. Imediatamente, afasto-me dali e vou ter com o Jawaad.

        – Diz-lhes para tomarem posição nas janelas e atrás da porta! Não podemos deixar que eles entrem cá dentro!

        – Ok! Vou tratá disso!

        Apressei-me para uma das janelas e pude ver alguns dos tais Gewelddadiges. Não eram crianças e sim adultos armados com M16, a dispararem para a entrada. Alguns deles vinham a correr desde a floresta até á entrada, sem notarem em mim na janela. Peguei na minha AK47, fiz pontaria, e estava prestes a disparar… Mas vou admitir: Não tive coragem para o fazer. Não tive coragem para matar. Ou pelo menos, até que um dos que vinha a descer notou em mim. Aí, como mera reacção automática, meti o dedo a fundo no gatilho. Matei uns três de uma vez. Nem sei. Foram abaixo, enquanto os outros que vinham foram mortos pelos nossos que estavam na porta. Por um momento, depois daquele breve tiroteio, tudo ficou calmo por alguns segundos. Foi uma barragem de tiros, mas agora estava tudo em silêncio. Começámos a sair pela porta abaixados, com atenção para garantir que estavam todos mortos… E todos pareciam estar, até que um tiro vindo sabe-se lá de onde atingiu um dos nossos. Eu estava ao lado dele, no momento em que o tiro atravessou o peito dele e todo aquele sangue voou pelos ares. Fiquei espantado ao ver que o atirador que deu o tiro escolheu-o a ele e não a mim. Matei naquele dia. E o morto podia ter sido eu.

        – Merda! -Disse-me o Jawaad – Sniper na floresta! Abaixa-te!

        Atirei-me, tal como todos os outros, para o chão. Estar perto do chão dá-nos conforto e segurança. Disparámos todos em conjunto para entre as árvores, com a esperança de atingir o sniper isolado. Eu era o “rapaz da frente”, por isso tive que ir na frente para ver se ele tinha sido morto. Enquanto subia, estava cheio de medo que ele tivesse ficado vivo e aparecesse do nada e me desse um tiro. Já me estava a preparar para dizer as minhas palavras finais (Isto é, se tivesse tempo!) quando qual não foi o meu alívio quando eu vi o inimigo no chão, com a sua sniper por cima do seu cadáver. Fiz sinal aos meus companheiros. Eles baixaram as armas e foram ter comigo. Disse ao Jawaad:

        – Então… Podemos voltar?

        – Agora mesmo.

        Tivemos que esperar alguns minutos que o camião voltasse a passar por lá, tal como planeado. Quando o camião voltou, o Jawaad informou o condutor da situação, enquanto alguns outros saíam do autocarro que vinha e entravam pelo armazém para carregar o armamento que encontrámos para outros camiões e carrinhas que vinham aí.

        Metemo-nos dentro da mesma carrinha que nos veios por e voltamos á base, mesmo na hora do almoço. Comemos o almoço, que em vez de ser sopa com pão naquele dia foi sopa com peixe. Para ser honesto, preferia o pão.

        Naquela noite em que passei a reflectir no dormitório, fiquei a pensar no que eu tinha feito. Eu tinha morto alguém. Whoah. Eu sei que certamente aqueles não eram bons indivíduos, e se eles estavam no meio desta “guerra tribal” então certamente não eram pessoas de fazer o bem. Mas o simples ato de matar… Será que alguns deles eram pessoas como eu? Que também tinham entrado nesta guerra apenas forçados porque não receberam escolha? É… Uma pergunta interessante da qual eu nunca saberei a resposta, pois agora eles estão mortos. Não sei quem eles eram ou porque exactamente nos queriam matar, mas agora retirei mais três vidas ao mundo. Mal consegui dormir a pensar nisso. Simplesmente porque custava pensar no que eu tinha feito, e ao mesmo tempo não me saía da cabeça.

        No que é que eu me tinha tornado?

        Os dois dias seguintes não foram nada de especial. No primeiro pratiquei a minha pontaria com garrafas e no segundo tudo o que fiz foi tomar as “refeições” (Isto é, se pudesse se chamar ao que eles dizem ser refeições) e ficar deitado na cama, a pensar na minha vida. O que me estava a acontecer? Porque é que eu não posso simplesmente voltar aos tempos onde a “guerra” era apertar botões em jogos de computador? Tempos que nem há 5 dias tinham desaparecido e já me estavam a fazer saudades. Agora eu estava a tornar-me em algo novo. E pior. E mesmo assim, ainda havia em mim algum tipo de fome insatisfeita, uma fome além de ser por boa comida, também por mais alguma coisa que eu não conseguia explicar.

        No dia seguinte é que as coisas se tornaram sérias. Ou bom, mais do que já estavam. Fiz provavelmente o que muitos consideraram “O grande ato heróico que me provava como um verdadeiro Moordenaar”, mas que por outro lado é algo que eu realmente nunca devia ter feito.

        Não é que eu sequer pudesse imaginar as consequências, mas certamente tudo seria mais fácil até agora se eu não tivesse feito aquilo.

        Acordámos com o Thulani a chamar-nos, aparentemente, para algo sério. Fomos ter com ele á sala de conferência, que acabou de ganhar uma melhoria! Não, não puseram uma cadeira ou um projector ou sequer alguma mobília, mas tinham arranjado uma TV! E foi nesse momento que vi o que estava a passar na TV- Uma notícia de um telejornal com o seguinte título:

        “Africa airplane crash alerts USA’s Navy SEALs”

        Basicamente o que a pivô dizia na notícia era alguma coisa do tipo:
“… The reason of the crash is still not certain due to the fact that still no one got into the crash site, although there appear to be no survivors at the moment. The problem is, according to the last records heard by the control tower, the airplane was actually hit by what some investigators say to sound like an explosion caused by a “Sent-to Air Missile (SAM)”. While ONU and medical teams are still trying to reach the crash site in the middle of the African jungles, some US SEALs have volunteered to dispatch together with the Search & Rescue teams to make sure that if this was a job from a ground-located terrorist force then they will have  clearance to open fire…”

        Furioso, o Thulani desligou a TV e pôs-se a berrar connosco, mais ou menos como o Hitler no Downfall. Desde que cheguei àquele lugar já tinha ouvido mais pessoas a berrarem e gritarem do que a falar normalmente. Parecia que quase ninguém conseguia manter um tom de voz normal. E após o Thulani gritar, espernear-se, contorcer-se, suspirar, gritar mais e dar murros na parede para provar que estava furioso, voltámos aos dormitórios para irmos buscar e carregarmos as nossas armas. Enquanto metia as balas no carregador da minha, virei-me para o lado e perguntei ao Jawaad:

        -… O que é hoje então?

        – Tipo, tásaver o avião que caíu por aí? Aquele ganda desastre?

        – Claro… Eu vim de lá, duh!

        – Os Americanos vêm prós nossos territórios investigar a cena.

        – E então?

        – Então, e se os mambos descobrem á nossa base?! Não podemos deixar que isso aconteça!

        – Ou seja…

        – ‘Seja, vamos ter que sair por aí e matar qualquer desses Americanos que passarem por perto.

        – O QUÊ?! Mas isso é um absurdo! Vocês não sabem o quão avançado é o equipamento deles? Se eles sequer nos virem, estamos lixados!

        – Opah, mas são eles ou nós!

        – Isso não é estúpido? Ter que ir matá-los só porque eles estão perto dos destroços de um avião?

        – São as ordens! E as ordens são matar os Americanos! O Thulani que disse, nós fazemo! Agora carrega masé essa cena e vamos!

        Sem poder protestar (Diremos, com receio de que algum dos adultos compreendesse Português e me matasse) saímos dos dormitórios e consecutivamente da base, com as nossas armas prontas.

        Prosseguimos a andar pela floresta dentro, horas a pé até ao lugar onde o avião tinha despenhado. Após uma longa caminhada, quando já estávamos próximos, comecei a ouvir do nada uma música. Fortunate Son, dos CCR. Fiz-lhes gestos para eles se baixarem. Caminhei, agachado, para a minha esquerda, de onde vinham os sons. Vinham de uma estrada bastante larga que atravessavam a floresta. Segui um pouco essa estrada, com os outros atrás de mim abaixados deparando-me com alguns montes e colinas, por onde a estrada também atravessava. Comecei a ouvir ao fundo, juntamente com a música que estava extremamente alta, o barulho de veículos a virem. Humvees. Escondi-me atrás de uma das pequenas colinas e, escondido entre algumas ervas, observei os Humvees. Eram dois Humvees típicos Americanos, armados até aos dentes, com uma blindagem capaz de fazer inveja a tanques Russos e com uma enorme M60 montada no topo de cada, embora não tivesse ninguém a usá-las. Observei-os. Pararam a alguns metros de nós e saíram cada um dos seus respectivos Humvees para o exterior. Eram quatro soldados Americanos, provavelmente SEALs, armados com M4A1s e UMPs-45, todas com silenciadores e Red Dots. Um deles pega em uma espécie de “walkie-talkie”. Consegui ouvir a conversa deles:

        – This is Breacher 9 reporting back to base, Rotfox, do you copy?

        – Roger that, I’m hearing you loud and clear, Breacher 9.

        – Rotfox, according to the GPS coordenates we are near the crash site, still no hostile contacts inbound…

        – Keep your fingers on the trigger, we are sending our Apache to the area in case if you may need air support. It could be nothing, but we must make sure that, when the S&R teams arrive, the area is clear and…

        Imediatamente tive uma ideia. Podia ser a única maneira de terminar isto. Virei-me para o Jawaad, que estava escondido ao meu lado e disse-lhe:

        – Diz aos teus amigos para ficarem para trás. Eu vou “enganar” os Americanos e falar com eles para “despistá-los”. Não saiam daqui.

        Passei para o outro lado da colina, abaixei a minha AK-47 e gritei aos Americanos para não só para não dispararem mas também para que com este berro de alerta me vissem:

        – PLEASE! DON’T OPEN FIRE!

        Ao verem-me com a AK, a primeira coisa que os Americanos fizeram foi apontarem logo as armas deles para mim, mas sem dispararem. Assim que me aproximei devagarinho deles, com o meu dedo afastado do gatilho e com a minha AK apenas segura ao meu pescoço pela alça que tinha presa, eles também abaixaram as deles. Continuei a falar, a rezar para que ninguém dos Moordenaars que me tivessem a ouvir soubessem falar Inglês:

        – Listen! There is an armed group with child soliders with a base settled around here! Please! You need to something! They’ve made me as a prisioner and wanted me to kill you! I don’t want to do this war!

        Um deles olhou para mim e disse:

        – Ok, relax! Come with us in the Humvee, me and Breacher will take you to our base!

        – Where?

        – around 11 miles from here to the North, but if we mark an LZ for our CH-46 around here you will be there in no time! Let´s go! Get into the…

        Antes que o soldado pudesse terminar, os Moordenaars imediatamente pulam da colina e aparecem a disparar para os Americanos, antes que eles sequer pudessem reagir. Baixei-me imediatamente, de olhos fechados e com as mãos nos ouvidos, no meio daquele monte de tiros altíssimos e balas a voarem violentamente para todo o lado. Quando consegui coragem para abrir os olhos e olhei para os lados, deparei-me com os quatro soldados com o corpo cheio de balas, a sangrarem no chão. Um deles, que parecia ser o tal Breacher 9, disse-me, ainda ligeiramente vivo (Mesmo encharcado em sangue), olhando para mim:

        – Fucking… Ambusher…

        Foram as suas últimas palavras, morrendo em seguida, ali, de olhos fechados. Os outros três já estavam mortos. Não sobrou nenhum. Levantei-me, com os Moordenaars a descerem a colina para ao pé de mim com as armas apontadas para os soldados mortos, prontos para “enfiar bala” caso algum ainda se mexesse. Disse em alto:

        -Merda.

        Ainda a recuperar do susto, ouvi uma voz de fundo, do walkie talkie que tinha ficado caído no chão no meio do tiroteio:

        “… Breacher 9! Do you copy? I repeat, do you copy? Dang! Our air support is on the way, the Apache is almost there, do you…”

        Peguei no walkie talkie e, em um momento de raiva instantânea, atirei-o para longe. O meu plano para fugir de vez dali e voltar para casa tinha falhado. O Jawaad foi ter comigo, aparentemente surpreendido, e perguntou-me:

        – Tu… Que distraíste os Americanos?

        – Sim, Jawaad… Estava precisamente a… Hã, distraí-los com conversa seca para vocês poderem matá-los. Fizeram a coisa certa.

        Jawaad começa a sorrir:

        – Não mano, TU fizeste a cena certa, pá! Tipo, essa foi mesmo boa! Lixaste bem os mecos!

        – Os agradecimentos podem ficar para depois, agora VAMOS BAZAR DAQUI! VÊM AÍ UM APACHE! FUJAM!

        – O quê mano?

        – Um helicóptero! Daqueles que pode estar a uns 50 quilómetros de altura que nos consegue matar! Rápido, diz-lhes para nos metermos pela floresta, pode ser que o Apache não vos veja no meio da vegetação!

        Enquanto Jawaad dizia isso aos outros, já eu corria para o meio da floresta, desesperado. Mas quando eles todos começaram a correr atrás de mim, já era tarde demais… Mesmo nós nem conseguindo ver ou ouvir helicóptero, eu já conseguia ouvir os tiros e mísseis a caírem atrás de mim. Olhei para trás de mim por um momento e foi o horror: Deu para observar os Moordenaars a literalmente voarem pelos ares no meio de explosões, a ficarem queimados para trás e a serem dizimados a cadáveres. Corri pela floresta adentro, assim como os que sobreviveram, felizmente fora do alcance da vista do helicóptero, afinal nem o equipamento super avançado dos Americanos era suficiente para conseguir ver por entre o meio de tantas árvores e vegetação… Mas não estávamos fora do alcance da mira. Mesmo sem nos ver, o Apache continuou a disparar e a usar artilharia pesada sobre toda a floresta, sem ter a certeza do que atingia naquele momento, mas obviamente, com tantas explosões e tiros, acertando mais um monte de Moordenaars. Corremos desordeiramente para lados opostos, até deixarmos de ouvir o Apache a abrir fogo. Olhei para mim mesmo para ver se ainda estava intacto. Bem, felizmente nada mais além de um ou outro arranhão, só não é que o mesmo se pudesse dizer quanto aos outros. A maioria encontrava-se estendido pelo chão, e queimado ou não, uma coisa eu posso afirmar: Não havia nenhum cadáver intacto. Ou estavam com buracos do tamanho da Rússia no peito, ou estavam sem cabeças ou sem pernas ou sem braços, ou até mesmo alguns estavam divididos em 2 pedaços. Enfim, a floresta tinha-se transformado num banho de sangue. Os que sobreviveram começaram a gritar alto uns com os outros, para nos reencontrarmos no meio daquela confusão de cadáveres, incêndios e árvores caídas. No final, não tinham sobrado muitos mais vivos do que eu, o Jawaad e uns ou outros que tinham corrido a tempo.

        – … E agora, mano?- Perguntou-me o Jawaad.

        – Agora, voltamos para a base e jantamos, nem que seja o último jantar das nossas vidas. Metemo-nos com os Americanos… Quero ver agora como vamos sobreviver a isto! Eles têm equipamento superior a qualquer coisa nossa. Acho que nem aquelas Colts que roubámos ontem devem chegar para os enfrentarmos, pelo menos, com pé de igualdade.

        – Mas…

        – Confia em mim, tu não sabes do que a tecnologia deles é capaz. Reparaste bem como foi aquilo há bocado? Aquilo foi apenas uma mera amostra comparado ao que eles são capazes. Eles têm snipers capazes de atravessarem tanques, aviões telecomandados que disparam mísseis telecomandados e até alguns desses mísseis são suficientes para transformar o espaço desde aqui até à base em uma enorme cratera! Acabámos de nos meter com as forças que certamente têm o melhor equipamento militar do mundo. Se eles descobrem a base, e confia em mim, não vai ser difícil para eles, nós estamos, digo-te já… Totalmente f****! Vamos voltar mas é para a base!

        Jawaad passou as minhas ordens para os outros. Caminhámos de volta á base, apenas pela floresta, para caso aparecesse o Apache de novo não nos visse. Quando chegámos á base, altura em que já era de noite, aparece-nos o Oficial que me tinha passado as funções em Inglês no primeiro dia. Estava furioso. Muito provavelmente por algo tão “simples” como ir matar uns Americanos ter acabado naquele holocausto, e com tão poucos vivos. O Jawaad respondeu-lhe qualquer coisa, que suponho eu, deve ter sido “Lamento, agora deixe-nos ir comer que daqui a pouco vão aparecer montes de F22s e bombardear esta cena toda”.

        Fomos todos Jantar para o refeitório (Mais uma vez o tão nutritivo pão com sopa). Não que tivessem sobrado muitos de nós, mas para compensar vieram bastantes crianças das outras divisões da base, onde todos naquele jantar partilharam a história do que tinha acontecido e do que provavelmente se ia passar. Eu não conseguia perceber nada do que eles falavam, mas uma coisa era óbvia pelos olhares e pelos tons de voz deles: Medo. Eles estavam totalmente assustados. Afinal a vida deles era esta, morrer pela “grande causa”, mas no geral estavam bastante assustados pelas histórias que percorriam pelo refeitório durante o Jantar sobre a possibilidade dos Americanos os encontrarem.

        Ou “Nos”encontrarem.

        Nem sei. No meio desta coisa ridícula, é difícil dizer que se segue um lado. Aliás, e de que lado no meio disto estou? Não sou nem um Moordenaar. Nem sou um Gewelddadige. E por mais que eu admire o equipamento deles, não sou um SEAL. Sou apenas do lado que quer fazer o bem e lutar pela paz no mundo. E olhando pelos outros“lados” que tenho visto por aqui… Não consigo bem identificar se exista sequer algum lado que seja totalmente a favor disso.

        Bem, mas voltando ao Jantar, foi nessa altura onde uma coisa de especial aconteceu. Para minha surpresa, uma das raparigas que veio servir-nos a sopa foi precisamente ninguém menos que ela.

        A Bianca. Até ainda com as mesmas roupas cheias de sangue do dia do desastre.

        Olhei para ela, mas ela evitou totalmente olhar para mim. No começo, achei que ela estivesse ainda em choque e que certamente a minha presença ali não lhe ia a ajudar a esquecer tudo o que acontecera antes, mas não era nada disso. Ela só não queria chamar a atenção.

        Como? Ao segurar a minha tigela para beber a sopa (Engraçado que naquele lugar havia várias AKs, mas nenhuma colher), notei que havia qualquer coisa debaixo da tigela. Sem tentar dar muita atenção, bebi a sopa, virei a tigela do avesso e vi em baixo um bilhete escrito a caneta, colado com fita-cola á parte de baixo da tigela.

     “Estarei na cozinha esta noite, vem assim que puderes. PS:Estou farta

        Fui para a cama, a pensar em como faria para ir ter com ela á cozinha. Planeei que logo que todos pregassem o olho (Ou bom, pelo menos os que ainda não tinham dormido até ali) a primeira coisa que eu ia fazer era levantar-me e ir á cozinha. Meti-me dentro dos lençóis e fingi dormir profundamente, mas ainda atento até ao momento onde todos eles dormissem.

Estava a observá-los. Frio e atento. No fundo é sempre assim que eu fui: Frio quando me foco em entender o mundo á minha volta. É bom pois uma pessoa fria parece estar totalmente desligada do mundo, mas no fundo é sempre o mais frio que está mais atento a tudo. Especialmente ao momento de atacar.

Younger Warfare- Capítulo 2: Recepção implacante

Posted in Uncategorized on Junho 14, 2011 by henriquedematos

 

Enquanto eu estava ainda a tentar recuperar totalmente os sentidos, com a mente em pânico e confusa, de tentar descobrir o que me acontecera, de como é que eu podia ter feito um corte desse tamanho e de como é que eu ia sobreviver sozinho no meio do nada, ouvi berros vindos do lugar do destroço. Corri até lá, mesmo que ainda meio zonzo. E foi ao chegar que encontrei, encostada a um pedaço da asa vertical, ninguém menos que a rapariga que me acompanhara na viajem. Ela estava em pé, com a camisa dela mais vermelha do que branca. Aproximei-me dela. Ela estava em choque. Nenhum de nós sequer sorriu ao avistar o outro. Não que houvesse razão para isso, mas enfim. Ela olhou para mim com o que foi provavelmente o olhar mais frio que já vi em anos. Encostei-me também na asa vertical ao pé dela e deixei-me “escorregar” para ficar sentado. Ela fez o mesmo. Ficámos algum tempo quietos, lado a lado, sem falarmos. O momento falava por si. Estávamos os dois em estado de choque, cobertos em sangue e sem qualquer reacção. Depois de alguns minutos, levantei-me de novo, com o meu braço ligeiramente melhor. Estendi-lhe o meu outro braço. Ela inicialmente não fez nada. Ficou apenas a olhar para a minha mão cheia de sangue do casaco. Tanto que tive que dizer:

        -Sobreviveste só para ficares aí a morrer?

        Ela olhou para mim de forma fria, para variar. E estendeu a mão dela, para eu puder puxá-la e pô-la em pé. Caminhámos lado a lado entre os pedaços de avião destruídos. Não houve um abraço. Não houve sequer um sorriso. Não houve nada de bom naquele momento, e agora que penso nunca haverá. Afastámo-nos da destruição causada pelo despenho e metemo-nos por algumas moitas na floresta.              Fomos andando até encontrarmos um tronco velho derrubado onde nos sentámos. Ficámos calados e sem emoções a mais algum tempo. Ainda com esperanças de que ela dissesse alguma coisa, falei:

        -Então? O que vamos fazer agora?

E ela não respondia. Nem olhava para mim. Insisti.

        -Diz alguma coisa! Vá lá! Não podermos ficar aqui calados.

        Ela continuava em silêncio, com os olhos focados nos restos de avião a arder, a não muitos mais que uns ¼ de quilómetro de nós. Ainda continuei a insistir.

        -O que adianta fingires que não sabes que estou aqui? Vá lá! Reage!

        Nada. Só me faltou dizer mais uma coisa…

        -Por favor… Se não falarmos um com o outro, vamos acabar os dois malucos

        Foi então aí que ela sorriu. Talvez a primeira vez que sorrira para mim. Ela não me estava a olhar nos olhos, ainda estava focada na destruição e nas chamas, mas sei que era para mim. Ela disse-me, ainda a sorrir e com uma voz surpreendentemente calma:

        – O que queres dizer com “malucos”? Só porque os outros não nos iriam compreender, nós é que somos os malucos?

        Ela respirou profundamente por um segundo, e continuou a dizer-me:

        – Estamos perdidos no meio do nada. Acabámos de sair de um avião a arder. Como é que algum outro idiota ia nos entender se tentássemos explicar isto a alguém?

        – Tu… Tens razão. Não vou argumentar contra isso. Mas isso não significa que nos tenhamos que tornar tão distantes assim ao ponto de não podermos falar mais como amigos.

        Ela rebaixou o seu sorriso.

        – Acabei de te conhecer do nada há provavelmente menos de 24 horas. Não sei porque havia de confiar em ti, “amigo”.

        Eu calei-me. Não tinha mais o que dizer. Só depois de uns breves segundos em silêncio é que me lembrei de dizer:

        – Se não confiares em mim, em quem vais confiar?

        – Tu és realmente idiota. Não preciso de confiar em ninguém.

        – Não podemos viver sozinhos no mundo sem “ninguém”. Temos que ter alguém ao nosso lado. Aliás, by the way, qual é o teu nome? Ainda não me disseste. O meu é Félix.

        – Chamo-me Bianca, e caso penses que me podes dar lições de moral sobre como viver e confiar então não deves…

 

        A nossa “entusiasmante”conversa foi interrompida ao ouvirmos passos do nada a virem na nossa direcção, não muito distantes, por entre as árvores. Ficámos os dois assustados. Depois começámos a ouvir vozes. Vozes não de homens ou mulheres. Vozes de crianças, praticamente de pirralhos, provavelmente mais novos do que nós. Ficámos quietos por um momento a ouvi-los vir na nossa direcção. Eram obviamente crianças.

 

        -São miúdos Disse eu baixinho- Não sei se devemos confiar neles… Mas pode ser que eles conheçam algum bom lugar por aqui.

        -Nem sabemos onde estamos!

        -Ya, mas bem…São miúdos. Não nos vão fazer mal.

        -Ficamos aqui e esperamos por eles passarem, é?

        -Soa bem.

 

        De imediato surgem alguns miúdos negros, uns 4 ou 5, que aparecem por entre as árvores a alguns metros de nós. Não os conseguia ver bem, mas eles pareciam-me ok. A primeira coisa que pensei foi “Óptimo, eles devem saber onde posso usar um telefone ou alguma coisa assim por aqui”. Só achei inicialmente estranho o facto de que mal eles nos avistaram sentados a primeira coisa que um deles fez foi apontar para nós e gritar algumas coisas estranhas aos outros em uma linguagem que não faço a menor ideia do que possa significar (Só me pareceu que não devia significar coisa boa), mas de uma maneira ou outra tudo soava bem até eu notar no que eles estavam a carregar.

 

        Eles estavam a carregar armas.

        E nenhum deles parecia ter mais do que 11 anos.

 

        E qual foi a primeira coisa que eles nos fizeram? Apontar as armas, enquanto nos berravam algumas coisas que certamente deviam ser o equivalente a “Mãos no ar!” para eles. Pelo menos estávamos tão assustados que foi a primeira coisa que fizemos. Ficámos ali quietos. Quando eles se aproximaram de nós, que estávamos completamente imóveis, é que consegui bem analisá-los. Cada um deles vinha armado com uma AK47 que estava apontada directamente para nós, posicionada no ombro, tal como um soldado. Eles eram apenas miúdos e estavam com AKs. Enquanto uns ficaram a apontar para nós para garantir que não nos mexíamos, um disse qualquer coisa ao outro. Em seguida, esse mesmo disse-nos qualquer coisa e começou a andar. Admito, até agora ainda não percebi a linguagem em que eles falavam. Alguns empurraram-nos para nós os seguirmos. E assim fomos feitos reféns naquele dia. Por crianças. Não sabíamos para onde é que eles nos iam levar, só sabíamos que as ordens deles, mesmo não os entendendo, eram claras: Segui-los. Após andarmos um pouco menos que uma hora, já estafados de sermos forçados a segui-los, fartei-me de ter armas apontadas. Tentei falar em inglês para ver se algum compreendia:

        -Listen! STOP! What are you doing? What’s going on? Why are you taking us as hostages? We did nothing to you! We! Friends! We! No hurt!

        Mas eles gritaram ainda mais alto ao sentirem-se ameaçados pelas minhas palavras. Logo outro meteu-se á minha frente a fazer pontaria com a AK logo á minha cabeça, com a face, embora negra, pálida de raiva, como se eu fosse o inimigo em pessoa. Depois continuamos a seguir em frente por mais algum tempo, sempre com uma AK apontada à cabeça durante o caminho todo. O dia já ia longo… E onde é que isto ia dar? Vimos então um grande portão num lugar rodeado por um muro ocultado pelas altas árvores da floresta. Ao chegarmos lá, um dos miúdos gritou qualquer coisa e do outro lado e um homem negro e alto abriu-nos o portão – Provavelmente o primeiro adulto que vimos por aqui. Ao entrarmos, ficarmos surpreendidos. Lá dentro estava uma enorme base militar, onde fomos “recebidos” por um outro homem negro adulto, que olhou para nós e para o grupo que nos escoltava e gritou para irmos para uma direcção qualquer da base, na qual ele nos apontou. Ia dar a algo que aparentemente era a sala de conferências. Enquanto éramos levados, aproveitei para olhar á volta. Haviam literalmente centenas de miúdos negros a marcharem pela base enquanto seguravam em armas (Basicamente AKs 47 e 74 e algumas BARs), Enquanto outros estavam a reparar tanques e jipes em algumas oficinas. Alguns também estavam a fazer percursos de treino, enquanto seguiam ordens de instrutores. Racismo á parte, verdade seja dita: Nós éramos as únicas pessoas de pele branca que alguma vez teríamos entrado naquela base, e mal podíamos imaginar os problemas que isso nos traria.

 

        Fomos levados para dentro da sala de “conferências”, que não era de conferências coisa nenhuma. Nem tinha bancos para nos sentarmos em condições. Sentámo-nos em um canto da sala. De imediato, um negro barbudo e alto, bem vestido com uma farda militar de bastante profile, já com a aparência de carregar alguns bons anos com a sua idade, chega-nos a berrar qualquer coisa que não entendemos. Até que o mesmo miúdo que me viera a apontar a AK47 no caminho foi ter com aquele homem e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido.

        O homem espanta-se de súbito, olha para nós de uma maneira um pouco mais descontraída, e começa a falar inglês.

        -So! Who are you? Americans?

        -No – Disse a Bianca – We are Portuguese. You know, from Europe…

        -Ahhh! I know! The country from Cristiano Ronaldo! That guy who plays with the ball and gives kicks to the ball and stuff…

        – Yes, he is a good player- Disse eu-Now why the hell are we being made prisioners at this concentration camp of yours?

        -Not concentration camp, you Portugal idiots! You disgusting people are at the Moordenaars base! We are the most powerful tribe ever in Africa!

        -Really? Because I never heard of you…

        -Shut up, you Portuguese whore! Listen, we don’t like white skin people here in our base. How did you even get here?

        -Our plane just blew up and felt a few kilometers away from here. We have no fault!

        -Ha-ha, blew up? That was a good one! You are so funny! I would tell you more, but I will just go tell my message quick because I have more lands to conquer after this. You lucky survivors of the airplane disaster, ain’t you? Then we are only keeping you alive because we want you to work for us, even although you are despicable to us. But for that same reason it is useful for us to keep the crappiest in front of all. Boy… -Disse ele apontando para mim- You will be in the front lines from now on. In every single fight, in every single battle, you will always be the first one in the front. You will be our shield against the enemy and the one in front of all, so if you die then we won’t loose nothing that matters to us.

        Ele tossiu e continou a falar:

        -Oh, and you, girl… Girls are no need in battle. You, go straight to kitchen. You will make all of us food. We also like to use girls around here to… “Satisfy” us, but don’t worry, nobody will want to do it to you, you white skin ugly b****. So just keep feeding us if you don’t want to get wasted. Now dismiss. My boys will take each of you to your respective “work places”.

        Não pude acreditar no que este sacana nos tinha feito. Dois rapazes mais velhos aparecem e agarram a Bianca e arrastam-na para fora da sala, enquanto outro aparece do nada e tenta-me forçar a ser arrastado para a zona de Infantaria da base. Protestei de imediato.

        – YOU MOTHERFUCKER! YOU CAN’T DO THIS TO ME! YOU CAN’T!

        -Gonna act tough, Boy?

        -MY NAME IS FÉLIX, YOU FUCKING DICKHEAD!

        -Keep your swear down and you can choose… Or you will kill for us or us will kill you. Which do you prefere?

        E sem eu ter qualquer resposta possível ao trocadilho esperto vindo do péssimo inglês daquele gajo, fui arrastado para o dormitório da base. E onde eu estava prestes a conhecer um mundo completamente novo. Assim que fui empurrado para dentro dos dormitórios, foi mais ou menos como naqueles Westerns antigos, quando um cowboy entra num bar: Todos olharam para mim. Olharam para mim como se um ET tivesse a entrar na sala. Entrar por aquele dormitório, cheio de rapazes negros que me fitavam com frios olhares, foi o suficiente para me fazer acreditar que de um momento para o outro todos eles iam partir para cima de mim e encher-me de porrada por eu ter uma pele de cor diferente do que a deles. Porra! Lembro-me de uma vez contar entre amigos uma piada maldosa que vi na net: “Hey, sabem o que é branco em cima e negro em baixo? A sociedade!” e todos nos rimos na altura. Agora eu estava mais ou menos “Hey, sabem o que é castanho em cima e castanho em baixo? As minhas calças!”. Porque eu borrei-me todo ao ver aqueles negros a olhar para mim, com um aspecto ameaçador e quase prestes a matar-me. Aqueles não eram os “xibangas quiados da Amadora ca mania de gangstas” com que eu fazia piadas racistas em Portugal. Tanto que depois de atravessar os dormitórios até ao lugar onde estava a minha cama, que me foi “gentilmente”indicada por um dos “guardas” (Entendam “gentilmente” por levar um chute no cu e ser atirado para lá), pensei seriamente se devia voltar a fazer alguma piada racista na minha vida. Todos olhavam para mim, curiosos por um lado e furiosos por outro, a perguntarem-se quem seria esta criatura de pele branca que tinha entrado. Deitei-me em cima da cama, sobre os lençóis. E logo, após ficar um pouco quieto, tempo suficiente para os que estavam á minha volta deixarem pouco a pouco de me observar e voltarem às suas ocupações de fazerem a cama e polirem as suas armas. No meio daquele silêncio, disse baixinho e a pensar alto:“Merda”.

 

        De súbito, assim que disse isso, um dos rapazes, com idade aparente de 11 ou 12 anos que estava na cama á direita da minha a examinar os carregadores da sua AK, olha para mim, e com um sotaque incomum mas não desconhecido perguntou-me:

        – Tu… Disseste“Merda”?

        Escusado dizer que a minha reacção foi:

        – Mas espera, e tu falas Português?

        – Tipo, eu sô lá d’Angola!

        – Óptimo! Então podes me dizer onde é que raios estou?

        – Ó pá! Tu tás…

        – Hey, olha aí. Não precisas de me tratar por “pá”. Trata-me por Félix, o meu nome. E qual é o teu?

        – Chamo-me Jawaad.

        – Nome fixe. Agora continua lá a dizer onde estamos, Jawaad.

        – Nós estamos…Nem sei. Praí pela África, não muito longe da África do Sul. Os tipos não nos dizem, tásaver?

        – Então, não sabem onde estão neste momento?

        – Não memo. Só sabemos que ‘tamos n’África, e já ficas com buédas de sorte de saberes, mano.

 

        Olhei á volta para ter a certeza que os outros já estavam de volta da vida deles e sem prestar-nos atenção. Excelente, estavam. Aí sentei-me no lado da cama, e perguntei com um olhar e uma voz séria:

 

        – Então… O que“estamos” a fazer aqui? Porque estamos todos cá?

        – Xé, eu tou cá porque há umas becas de anos atrás eu fugi de casa…

        – Por quê?

        – Tásaver, o meu kota quinou e a minha kota casou-se com um branco aí cheio de mania que vinha sempre me dar porrada quando eu vinha da escola. Por isso, fugi. Foi aí que encontrei uns mambos que me disseram que eu ia prá um lugar que lá eles trão os seus motivos pra não dizerem onde, e que eu podia recomeçar a vida. Aí meteram-me num avião e fui práqui com eles. Pronto. Foi isso. E agora o que fazemos por aqui é aquela cena essencial, de mantermos a África pelo controlo dos Moordenaars e impedir que os Gewelddadige-Reëls dominem primeiro a cena.

        -Peraí! Mas o que raios são o Mordenaros e os Geweldes-quaisqueres-coisas? O que se passa aqui?

        -Somos tribos inimigas. Odiamo-nos e tamos em guerra. Se tu fosse dos Gewelddadige-Reëls já eras.

        -Mas isso não justifica nada! Porque é que estão em guerra? Só porque não gostam um do outro?

        -Porque temos objectivos iguais: Sermos os maiores de África.

        -Ok… E porque é que querem lutar por isso? Qual é o propósito de…

 

        Do nada, apareceu um homem que parecia ser a versão negra do Hartman do Full Metal Jacket. Veio ter comigo a apontar-me o dedo e a gritar como se não houvesse amanhã. Eu fiquei quieto, sem dizer nada, a tentar entender o que possivelmente pudesse significar o que ele dizia. Em seguida ele pegou numa AK47 e por um momento quase ia acreditando que ele me ia matar com aquela coisa, mas ao invés disso ele passou-me a AK47. Barafustou mais uma coisa ou outra e foi-se embora, saindo pela porta, deixando-me sentado de lado na cama a segurar na AK. Coloquei a AK47 encostada de lado na cama e perguntei ao Jawaad:

 

        – O que é que este tipo queria?

        – Nah, nada, tásse, esse mambo, o Thulani, só te queria entregar-te a tua arma. Tásaver… Agora essa arma é tua. Podes levá-la para onde quizeres e usá-la para o que quizeres, mas claro que só te dão durante a batalha as munições prás disparares.

        – Então… Entendo. Agora estou “oficialmente” armado.

        – É memo. Bem, mano, se eu fosse a ti, dormia já.

        -Mas o sol ainda só se está a pôr!

        – Ya, é por enquanto. Mas tu nunca sabes quando vamos ter que acordar por aqui, portanto é memo melhor começar já a dormir para caso que se comece a haver tiro lá prás 5 da manhã e tenhas ‘qir já tenhas descansado uma beca suficiente.

        – Mas eu ainda nem jantei!

        – Xé, o Thulani normalmente vem nos acordar a dar pancadas em panelas pra irmos prá janta. Digo-te memo mano, é boa prática para acordar rápido e prontares-te caso fosse um ataque ou uma cena do tipo!

        – Ok… Então… “quia”…

        – Tu também, mano.

        Sem trocar de roupa, meti-me dentro dos lençóis e fui dormindo, apenas para ser acordado, acho que nem uma hora depois, pelo tal Thulani a bater com um pau numa panela e a gritar a todos o que certamente devia ser o equivalente a “O jantar está na mesa! Tirem os vossos cus preguiçosos da cama e venham cá!”. Fomos saindo pela porta e caminhámos em direcção ao refeitório. Enfim… Uma sala suja e sem qualquer cadeira ou mesa para nos pudermos sentar e comer. Então, como é que comíamos? Basicamente sentávamo-nos no chão e comíamos com a mão. Após estarmos todos sentados, uns a conviverem com os outros (E eu sem falar com ninguém, claro, apenas encostado na minha esquina a pensar na minha vida – Que naquela altura já nem parecia mais vida, mais parecia que eu já tinha ficado morto no avião), a porta da cozinha que ficava na sala ao lado abre-se e aparecem algumas raparigas, com uma idade, atirarei eu, de para aí uns 16 ou 17 anos, a trazerem tigelas de sopa. Tentei não dar muito nas vistas, mas obviamente o meu instinto masculino falou um pouco mais alto e observei as raparigas. Elas eram quase adultas, bastantes bonitas, devo dizer… Só é pena que uma delas tivesse óbvias marcas negras de alguma certa brutalidade, não sei vinda de quem, no pescoço. Bem, acho que isso pudesse resumir como eles tratavam as mulheres por aqui. Coitada da Bianca.

        Elas serviram-nos as tigelas. Curiosamente, as sopas não estavam nada más até… Até que combinaram bem com o alimento que veio a seguir á sopa: Pão. Com algum chouriço lá dentro, isso é verdade, mas era pão.

        Sim, é quase como uma piada: Fomos alimentados literalmente com pão e sopa.

        Depois desta refeição, voltei para os dormitórios e deitei-me na cama. Pus-me debaixo dos cobertores, ainda sem mudar de roupa, e dormi descansadamente, pronto para os próximos dias de “acção”.

 

Younger Warfare- Capítulo 1: Partidas suaves e chegadas brutas

Posted in Uncategorized on Junho 14, 2011 by henriquedematos

Na sexta segue lá estava eu, de mala de viagem, juntamente com os meus colegas (Ou pelo menos com a maioria) no Aeroporto de Lisboa. Ainda me lembro, de eu, o Lucas e o Camilo (Os meus maiores amigos) atravessarmos a entrada do aeroporto juntos e descontraídos, a conversarmos. Sem nenhum adulto por perto, só nós os três. Nunca entrei num aeroporto apenas com amigos. Fez-me sentir um adulto, mesmo só tendo 14 anos. Boa sensação. Enquanto íamos para o check in e conversávamos, levando aquelas enormes malas de rodinhas carregadas de roupa e revistas porno (As deles, claro!) e discutíamos com o nosso geral calão sobre qual era a gaja mais boa da escola e sobre quem tinha feito o melhor K/D no Black Ops naquela semana, foi aí que o Camilo nos disse:

        -Hey, já sabiam que também vem pessoal do 9ºB e do 9ºD connosco?

        -Opá, tás a gozar, certo? Quem te disse? – Perguntei eu.

        -Não, é mesmo! O Vítor disse-me ontem pelo Facebook, parece que vai ele e quase a turma toda.

        -Mas o Vitor não era do 9ºB? Como sabes que também vêm os do D?

        -Tipo, a DT do D e do B é a mesma, portanto vais ver, digo-te só!

        -Ya, ya, vamos ver!- Disse o Lucas

        E qual não foi a nossa surpresa (ou pelo menos a minha e a do Lucas) quando vimos os do 9ºB e do 9ºD todos na fila do check in, juntamente com os da nossa turma a conversar uns com os outros.

        -Já estava a ver que vocês não vinham Disse a setora ao ver-nos chegar.

        -Tenha dó setora, tivemos que vir desde a Musgueira até aqui a pé!- Disse o Lucas

        -Também, quem mandou o Lucas ir viver tão longe daqui?- Disse o Camilo

        Enquanto eles ficavam a conversar sobre quem vivia longe e perto e a questionar-se porque é que raios tivemos a ideia de nos encontrarmos todos primeiro na casa dele antes de virmos para o aeroporto, nos meus típicos olhares à volta notei em algo curioso. No meio do grupo de turmas que se formava em monte para o check in, apercebi-me que no meio deles estava uma pessoa… Diremos, de interesse. Curiosamente, a mesma rapariga da T-shirt do Death Note com que eu choquei no corredor na sexta anterior. Já que ela estava distraída a falar com a amiga dela, decidi dedicar algum tempo a observá-la. Ela era boa… Uma face perfeita… Cabelos negros… E parecia ser ainda melhor para além dos seus olhares. Ela não estava a usar a t-shirt do Death Note nesse dia, porém. Ela estava a usar uma camisa branca e uns jeans completamente negros.

        Porque é que eu me meti a observá-la? Achei que se pudesse justificar como simples instinto masculino adolescente, de olhar para as raparigas. Mas acho que era no fundo como se eu conseguisse ver o futuro nos olhos dela.

        Só parei de viajar a olhar para ela quando ela olhou de volta para mim com uma cara um pouco estranha, mais ou menos naquela de “Mas quem raios és tu?!” . Antes que eu pudesse esboçar algum tipo de reacção, o meu instinto natural foi imediatamente virar-me de novo para o Lucas e para o Camilo, sorrir e fingir que estávamos a ter uma conversa onde por algum motivo tive que olhar à volta para observar a decoração do aeroporto. Resulta sempre… acho eu.

        E lá nos metemos a conversar de novo, enquanto fazíamos o check in com os outros e íamos caminhando até á nossa Gate das partidas, comigo olhando uma ou outras vezes para aquela rapariga pelo caminho, e com ela algumas vezes obviamente notando. Não sei porque é que eu estava sequer interessado em prestar-lhe atenção na altura. Não sei se eu tenho poderes psíquicos ou se foi simplesmente uma mera coincidência. Bem, de uma maneira ou outra, lá estávamos nós a caminhar para aquele voo. Continuávamos com as nossas conversas parvas, com mais um ou outro das outras turmas que se juntava à nossa conversa, quando ao chegar à Gate… notei no avião que estava pronto para nós na manga. Bem devia ter pensado 2 vezes e recusar de vez mesmo após ter gasto o dinheiro. Era um avião da TAAG. Daqueles aviões péssimos que se usam para ir e vir a Angola, que mesmo com uma fuselagem, diremos, bem pintada por fora, tem a qualidade interior de um metropolitano de Nova Iorque. Fui logo perguntando:

        -Não vamos ter que embarcar num avião da TAAG, certo?

        -Porra…

        -Não é na TAAG onde eles cagam em cima de um prato e servem-nos como se fosse o almoço?

        -Mais ou menos.

        Fui de imediato ter com a professora.

        -Setora! Não podíamos ir ao menos em outra companhia aérea de jeito? Sei lá, a Emirates?

        -Sim, pois! Agora a escola ia ter dinheiro para comprar voos da Emirates! Olha lá, fomos NÓS que tivemos que pagar todos os vossos voos com os 40 euros que vocês nos deram e com o nosso próprio dinheiro! Preferias ir onde? Num daqueles aviões de qualidade do 3º mundo da Air Afrique?

        -Mas a Air Afrique não fechou em 2002?

        -Vez? Até estás com sorte! Agora pira-te e volta para os teus amigos!

        Sem escolha e vendo que obviamente já era tarde de mais pra fugir dali, voltei para o pé dos meus amigos. Logo nos metemos em fila e fomos entrando para o avião. Assim que entramos, bem… Até que nem parecia tão mau como eu pensava. Pelo menos o avião estava limpo. Claro que ia custar permanecer umas boas horas ali, mas bem… Ao menos era capaz de levantar voo e aposto que era bem capaz de aterrar. Não me lembro que avião é que era, às tantas era um Boeing ou um Airbus. Parecia até ser bom. Mas de uma maneira ou outra a setora, como é óbvio, decidiu ser ela a escolher os nossos lugares no avião. Não era daqueles aviões enormes com grandes fileiras de 3 ou 4 lugares por lado e mais outros 4 pelo meio, eram apenas filas de 2 por cada lado. Mas deu para dividir: uns colegas para um lado, mais uns colegas para outro… E inicialmente eu ia ficar sozinho, mas qual foi a minha surpresa quando a setora mandou aquela rapariga desconhecida que eu tinha andado a observar sentar-se ao meu lado. Tal como pura coincidência. Ela sentou-se do meu lado, eu na janela e ela do lado do corredor. Nem olhou para mim ao sentar-se. O Marcos, outro amigo meu que estava no banco da frente, virou-se para trás e metemo-nos a conversar, enquanto a rapariga se virou para o corredor para falar com uma amiguinha qualquer. Enfim, estávamos os 2 sentados lado a lado enquanto o avião preparava-se para dirigir para a pista e descolar, e nenhum de nós falava com o outro. Apenas nos metíamos nas nossas vidas, como se nenhum de nós existisse para o outro. É como se houvesse uma parede entre nós. Bem, não que isso importasse muito, afinal logo fomos todos obrigados a sentarmo-nos correctamente, pormos os cintos e prepararmo-nos enquanto o avião fazia o taxing até á pista.

        Ficámos desde a chegada a pista até ao momento em que o avião levantou voo totalmente calados.

        Eu ficava a olhar para a janela a ver o aeroporto, a observar os aviões de diversos tamanhos e formatos a irem de pista em manga e de taxing em taxing, e ela ficava a olhar para… Bem, a parte de trás do assento da frente. Bem, é onde normalmente se olha quando se está dentro de um avião e não se está no lado da janela .

        Levantamos voo tranquilamente. Durante a 1ª hora continuou dessa mesma maneira. Enquanto eu estava a olhar pela janela, pude notar baixinho que ela estava a ouvir MP3. E estava a ouvir uma música que não me era estranha. Reconheci logo no momento em que consegui notar na voz a cantar “… A red door and I want it painted black…”.

        Ela estava a ouvir Rolling Stones.

        Wow… Death Note… Rolling Stones… Havia muito que pudesse ser dito em relação a essa rapariga. Bons gostos pelo menos, isso devo dizer! Ela parecia ser alguém com que eu realmente me daria bem se a conhecesse sequer. E após mais algum tempo de voo, decidi pôr as minhas aptidões sociais à prova e falar com ela. Pensei no que dizer e a primeira coisa foi logo:

        – Hey, tu gostas de Death Note?

        Ela olhou para mim com uma cara um pouco “Hã… Quem és tu?” e respondeu:

        -Sim… E tu gostas?

        -Sim, também gosto…

        Comecei a notar que assim que disse que gostava de Death Note ela começou a sorrir ligeiramente. Não propriamente a sorrir para mim, mais um sorriso de… Bem, de prova que não devia estar descontente.

        -Fixe! Qual é o teu personagem favorito?

        Fiquei um pouco à toa. A verdade é que simplesmente fiquei fascinado por ela gostar de Death Note porque já montes de gente me tinha falado do Death Note e dito que era um mangá fantástico. Mas para ser honesto, nem sabia o que dizer.

        -Deixa me advinha…Kira? –Disse-me ela. Eu, como já não tinha nada mais que pudesse salvar o meu argumento, simplesmente respondi logo:

        -Ahhh… Sim…Claro que é a Kira!

        Notei que o sorriso dela logo se foi.

        – Hey… Tu sabes que o Kira é o protagonista do Death Note, certo?

        -Ah… Sim, claro, foi o que eu disse… O Kira…

        -Hum… Okay… Tá fixe…

        Coincidência falar de animação Japonesa, pois tudo o que estava na minha cabeça naquele momento foi “Baka! Baka! Baka!”. Ela obviamente percebeu que eu atirei totalmente a cena do Death Note para o ar para meter conversa. Ficámos calados por mais alguns segundos até que ela deu uma risada não propriamente de diversão e disse-me:

        – Tu não me conheces de lado nenhum! Quem és tu?

        – Quem eu sou ainda preciso de descobrir em mim mesmo. E tu?

        – Boa frase, essa foi profunda.

        -Não me leves por nada de “julgamental”, mas tu pareces-me ser o tipo de pessoa que gosta de rock, lê mangá e sente-se revoltada contra o mundo. Espero que não esteja a…

        Ela suspira e diz logo:

        – Como é que sabes tanto? Andas-me a seguir? Tipo stalker?

        -Hã, não, que ideia…

        -Estranho…

        – Sim, um bocado… Hum…

        – Bem, vou ali à casa de banho e já volto…

        -Ok…

        Olhei para ela a ir-se embora e entendi logo: Essa de ir ao WC foi uma boa prova de que ela devia estar extremamente farta da conversa. Estou muito certo que ela só quis ir mesmo para poder desaparecer dali por um momento. Bem, por outro lado vou admitir: foi cá uma sorte. Se ela não tivesse no WC, se calhar ela não teria tido tanta sorte no evento que se segue. Como o evento de estar sentado no meu lugar… A pensar se haveria outra maneira de dar a volta à situação quando ela voltasse…. Quando de repente apanho o maior susto da minha vida.

        Ou melhor, começo-o a apanhar a partir daquele momento.

        Do nada, no meio do silêncio dos meus pensamentos, ouço literalmente algo que eu poderei descrever como montes de canhões a explodirem dentro do avião. O avião todo começou a estremecer sem parar. Foi nesse momento que olhei pela janela e vi a asa totalmente esburacada, como se tivesse levado tiros de uma pistola gigante. Ao contrário do que possa soar, nem o motor estava a arder, estava simplesmente a fumegar depois de ter EXPLODIDO COMPLETAMENTE. Pior, o avião obviamente cedeu á gravidade e começou a cair a pique. Ocorreu-me o pânico total, basicamente como a qualquer outro dentro do avião. Pulei do meu assento e a minha primeira reacção natural foi correr desordeiramente pelo corredor central do avião acima. Porquê? Porque é um instinto. Tanto que eu nem sabia para onde ir no meio daquela confusão de gente desesperada, ou para onde ia correr propriamente. Só queria sair dali o mais depressa possível, do meio daqueles berros e janelas a estoirarem de todos os lados, e como se de alguma maneira se eu fosse subindo o corredor acima (acima pois o avião estava praticamente a cair em vertical) eu acabasse por encontrar uma solução. Uma maneira de me salvar daquele desastre inevitável. Não fazia a menor ideia do que tinha provocado aquilo ou do que é que se passava: Só sabia que o avião ia ficar praticamente espalmado no chão e que tinha que haver uma maneira de eu sobreviver. E enquanto máscaras de oxigénio caíam dos compartimentos em cima dos acentos (Hmpft, está-se mesmo a ver… Como se fosse uma máscara com um saco á frente que nos fosse salvar) e o vento sugava tudo pelas janelas, lá estava eu, desesperado, com respiração cortada, a tentar chegar lá em cima enquanto o avião ficava cada vez verticalmente mais íngreme, e começando a rodopiar em torno de si mesmo perante a queda a uma velocidade absurda. No meio de tanta confusão, só conseguia entender que o avião estava cada vez mais perto do chão a cada segundo… Como é que era possível alguém sobreviver a uma queda daquela altura? Naquele momento, enquanto “escalava”, só tinha em mente a monte de coisas que me lamentava da minha vida, de pensar que foi pena não ter vivido o suficiente para perdera virgindade ou beijar uma rapariga! Achei que aquilo fosse o fim final… Que tudo fosse acabar naquela fracção de segundos… Segundos esses que ocorreram em seguida, onde o avião finalmente atingiu o solo. Lembro-me de olhar para baixo no momento em que o avião caiu e vi algo que era como uma bola de fogo enorme que vinha na minha direcção de baixo para cima. Assim que aquela enorme bola flamejante se aproximou de mim…

        A minha vida passou toda diante dos meus olhos…

        Foi uma sensação excelente, provavelmente uma das melhores que tive nos meus 14 anos de vida. Não senti dor. Não me senti a arder. Só senti-me calmo. Muito calmo. Como se tudo fosse ficar bem. Como se o todo universo tivesse ficado okay á minha volta. Eu praticamente conseguia ouvir o Great Gig in The Sky dos Pink Floyd a tocar dentro da minha cabeça naquele momento. Que boa sensação de estar praticamente morto completamente em paz, agora sem remorsos de nunca ter beijado ninguém ou outras lamechas estúpidas. Consegui sentir-me praticamente nas nuvens, a descansar encostado confortavelmente nelas, como se fossem sólidas. Ahhhhhhh…Que bom. Soube bem.

        Só após algum tempo, que não consigo determinar exactamente se foram segundos, minutos ou até horas, é que comecei a voltar-me a sentir em um estado “físico” de novo. Comecei a notar que estava montes de calor e montes de vento ao mesmo tempo. Consegui sentir um fresquinho enquanto eu estava confortavelmente aquecido. Oh não! Será que eu errei em mim mesmo e sem querer fui parar ao purgatório entre o céu e o inferno? Ou será que o cheiro de queimada me pudesse estar a provocar ilusões além da minha imaginação e dos meus delírios? Só me lembro de depois de começar a sentir o calor e o frio é que reparei que estava deitado sobre a terra. Á medida que ia recuperando os sentidos, olhei á minha volta. Bancos, cadáveres, pedaços da fuselagem, asas… Estavam todos espalhados em minha volta, bastantes ainda em fogo. Ninguém mais parecia estar vivo. Surpreendentemente, sem nenhum osso partido, levantei-me sem necessitar de muito esforço. Só foi o maior esforço quando ao levantar-me incidentalmente olhei para o meu braço e notei em um corte enorme que ia desde o ombro até quase ao cotovelo, e que estava a deixar o meu braço totalmente coberto em sangue. Ainda meio tonto, e não vou mentir, a começar a chorar, segurei no meu braço e desesperadamente enrolei-o em um casaco que estava no chão, com esperanças de conter o sangue. Bem, felizmente consegui por sorte não morrer ali por esgotamento de sangue. Ainda com o meu braço apertado ao meu peito, a premi-lo enrolado ao casaco com a ajuda do outro, caminhei o mais rápido que consegui e quase a chorar rios inteiros para fora da zona de destroços. Caminhei, caminhei, caminhei. Até que após me afastar um pouco do que restava do avião, ainda a ouvir o barulho das chamas a levantar-se, consegui conter os meus choros. Admito, choros tanto de dor física como emocional de estar perdido no meio do nada enquanto os meus amigos estavam mortos) e olhei á minha volta. Foi aí que notei em algo óbvio mas que só agora consegui prestar atenção: Eu estava no meio de uma floresta enorme. Era de dia e eu apenas conseguia ver o sol a partir da luz que atravessava delicadamente entre as altíssimas árvores. Deixei-me cair no chão. Por um breve momento queria ver se “morria” de novo, para poder voltar de novo àquele belo estado de estar meio acordado e meio a dormir em que estava antes. Mas não adiantou. Não sei se vivi uma experiência de vida-pós-morte ou se fui eu que simplesmente fiquei inconsciente e alucinei assim que o avião se despenhou, mas o que quer que me tenha acontecido, por melhor que tenha sido, foi algo sem retorno. Agora eu tinha que enfrentar a realidade de estar perdido praticamente no meio da selva, a sangrar de um braço e sem ninguém por perto. Ou bem… Pelo menos era o que parecia.

Younger Warfare- Intro: Sticks & Stones

Posted in Uncategorized on Junho 14, 2011 by henriquedematos

“I know not with what weapons World War III will be fought, but World War IV will be fought with sticks and stones”

        Uma clássica frase dita por Albert Einstein. Uma frase que nos faz reflectir sobre onde é que este mundo vai parar com tantas guerras inúteis entre nós. Acho que é interessante aproveitar esta ocasião para analisar um pouco como era a guerra no passado. E a quão a humanidade parece ser idiota pela maneira de como aceita os erros do passado.


        Imaginem um tempo, há muitos anos, muito antes de Cristo… Bem, devemos supor que as guerras eram literalmente sticks and stones. Até que alguém se lembrou que teria vantagem quem tivesse o pau mais comprido ou a pedra mais afiada. Então o pensamento chegou mais longe e percebeu-se que atando uma pedra extremamente afiada ao topo de um pau comprido se formava uma lança, um novo objecto muito mais poderoso do que o pau e a pedra separados. E depois de se dominar o metal e fizeram-se objectos compridos e afiados chamados espadas que podiam cortar pessoas ao meio. E que tal se substituíssemos as pedras afiadas no topo dos paus e as trocássemos por pedaços de metal afiados e as usássemos juntamente com umas cordas e um outro pau para podermos criar um potente objecto chamado de arco que fosse capaz de, com um simples puxão para trás, atingir um inimigo que estivesse a alguns metros de distância? E porque não ir avançando desse mesmo modelo para ir criando com o tempo arcos mais poderosos que lancem a maiores distâncias? Ah, claro! E as pedras maiores sempre podem ser postas em “colheres gigantes” atadas em bases chamadas de catapultas para poderem ser lançadas a enormes distâncias! Wow! Se bem, que após algum tempo isso fica aborrecido demais… Então por quê, em vez de catapultas, não fazer objectos cilíndricos gigantes chamados de canhões que funcionassem com pólvora e onde metêssemos lá para dentro uma enorme bola e aquelas cenas fossem projectadas a distâncias absurdas? Isso sim, é revolucionário! Ah! Mas nada tão revolucionário como quando os Chineses conseguiram reduzir esses poderosos objectos a algo ainda mais poderoso e mais pequeno que não necessitasse de ser carregado por rodas para a batalha. Algo que pudesse ser simplesmente segurado nas mãos de uma pessoa e activado simplesmente carregando num botão. As armas de fogo. Inicialmente eram apenas arcabuzes e pequenas pistolas de pouca potência carregadas com pólvora, até passarem a ser usadas balas. E até passarem a poder voar cada vez mais longe. E até poderem a passar, em vez de ser bala a bala de cada vez, serem montes de balas quase ao mesmo tempo. Onde por cada vez que se carregava no gatilho saía uma bala sem ter que se recarregar, de uma maneira “semi-automática”. Ou até depois, onde por cada vez que se segurava o gatilho saíam montes de balas, tudo totalmente automático. E antes que pudéssemos dar conta, já estávamos na 1ª guerra mundial a matarmo-nos com caçadeiras e metralhadoras. E logo chegam as bazookas, as sub-metrelhadoras, as snipers, as espingardas de assalto. E consecutivamente as Magnuns, as M1911, as MP40, as Thompsons, as AKs-47, as Makarovs, as M16, as MP5K, as M4A1, as Barrets M82, etc. Enfim, O armamento moderno e covarde de hoje em dia. E claro que não pode esquecer os acessórios: Miras cada vez mais modernas… Red Dots… Scopes… Silenciadores… Grips… Lança-granadas… E quando notamos já estamos a matar sem vermos o que matamos. Já não estamos a atirar pedras e a bater com paus em inimigos. Estamos a disparar balas e a matar pessoas a metros e quilómetros de distância. Às vezes nem é preciso tanto, afinal sempre podemos simplesmente apertar um botão e uma cidade inteira é pulverizada sem sequer vermos. Mais ou menos um bocadinho como Hiroshima ou Nagasaki. Podemos estar simplesmente a distâncias absurdas da acção sentados num helicóptero a matar gente sem eles sequer saberem o que aconteceu depois de darem o último suspiro. Enfim… Num mundo com tantas armas inúteis espanta-me como tantos tenham esquecido da arma mais poderosa de sempre: o cérebro humano. A verdade é que com a descoberta de tantas maneiras de nos matarmos uns aos outros, é justo afirmar que essa arma regrediu. Bastante. E, pelo que eu vi, o cérebro tornou-se tão fraco ao ponto de achar bem matar por meros pedaços de chão e ideias diferentes que é difícil dizer se alguém ainda usa esta “caixinha misteriosa” para o bem. Tenho pena do cérebro. Muitos dizem que só usamos 20% dele e ninguém se preocupa em usar mais.


        É curioso falar disto, pois era exactamente com estas ideias que eu estava a vaguear em mente enquanto estava naquela altura, num estado meio adormecido, com a minha cabeça debruçada sobre os meus braços durante a aula de Geografia. Bem, nisto e também sobre quais deviam ser as próximas armas que eu ia modificar no Call of Duty. Oh a ironia! Que linda que era antes da setora interromper os meus pensamentos bélicos do nada e berrar-me nos ouvidos:


        -FÉLIX! ACORDA!


        Quando eu me levantei e vi que a minha tentativa de me isolar do mundo fracassou e que eu ainda estava na sala de aula, fiquei surpreendido ao ver que apenas alguns da turma estavam a rir-se de mim. Curiosamente apenas os meus amigos se riam. Pois são esses que se importam o suficiente comigo para notarem nas porcarias que faço. De resto os outros estavam, como sempre, a falar para o lado e a passar tudo no caderno, mesmo que não estivessem a ligar a nada ao que a setora dizia, enquanto as raparigas ficavam nos seus lugares a pintar as unhas com verniz (Maldito verniz com cheiro horrível… Nunca entendi a utilidade daquela coisa, nem acho que fique propriamente bonito…) e a mandar SMS para as amigas e para os namorados, como se a professora fosse cega e não estivesse a ver nada. Distraí-me tanto a olhar para os lados para ver as idiotices dos meus colegas que nem ouvi bem a setora depois de me acordar subitamente no meio da aula. Só me lembro do que ela nos disse depois de que eu fui forçado a prestar atenção:


        -… Também não se esqueçam de levar alimentação suficiente para 3 dias e roupas velhas. Bom, é tudo, espero que estejam prontos para a nossa visita humanitária de finalistas à África. Lembrem-se de estar na próxima sexta no aeroporto às 9 e meia…


        Sim. Nós íamos viajar até aos postos da ONU e assisti-los a prestar auxílio aos desafortunados da África como “viagem” de finalistas. Claro que quando me disseram no princípio do ano que íamos viajar para a África eu fui o primeiro a pedir aos meus pais para comprarem os bilhetes para a viagem, afinal achei mais que óbvio que dizer “Viajar para África” era a mesma coisa que dizer “Viajar para o Egipto”, afinal sabia lá eu que ia passar pela cabeça de alguém ir à África central. Afinal na próxima sexta feira, assim que a escola terminasse, tinha que meter-me num avião que me ia levar àquele maldito inferno. Pelo menos, era assim que devia ser.


        Lá tocou para a saída. Entre empurrões e confusão, era a última semana de escola e claro que todos nós nos despedimos uns dos outros, afinal visto que nem todos podiam ir a África no final, haviam alguns colegas eu nunca mais iria ver de novo. Grandes amigos, quase irmão entre nós, que nunca mais iria olhar nos olhos de novo. Depois das despedidas apressei-me para a saída, com tanta vontade de sair da escola que tive a enorme sorte de ir contra uma rapariga que estava a tirar as coisas do cacifo. Parecia um momento num daqueles filmes chatos de adolescentes dos anos 80. Dado as coincidências que aconteceram depois é realmente um desses filmes que lembra. Fui contra ela, dei-lhe um empurrão sem querer e escusado dizer qual foi a reacção dela:


        -Fosgase, olha mas é por onde andas!

        Eu olhei para ela por um segundo. Notei no facto interessante de que ela estava a usar uma T-shirt do Death Note. Congelei por um segundo, e rapidamente disse:

        -Hey, desculpa aí…

        E fui andando.

        O que é que essa rapariga tem de relevante sequer? Dar de frente com uma rapariga é algo comum de todos os dias. E supostamente ela seria mais outra mera parte do relevo, que eu nunca mais veria de novo.


        E foi assim que saí da escola naquela sexta: Feliz por finalmente acabar o 9º ano por um lado, e ao mesmo tempo por outro um pouco triste por deixar certos amigos para trás. Não que isso me estivesse a preocupar muito, afinal muitos dos meus amigos iam também no avião na sexta seguinte. Mal eu sabia que na verdade eu ia sentir mais a falta dos que iam comigo no avião do que os que ficaram para trás, pois ao menos eu sei que os ficaram por lá eu ainda posso ir ter com eles e sei que estão ok. Provavelmente neste momento estão felizes a jogarem os videojogos deles ou se calhar chocados com as notícias e ainda a tentar recuperar do susto que possa ser para alguns, mas comparado aos outros até estão ok. Mas os que estavam comigo… Não sei se me deverei culpar, mas é um pouco difícil falar deles.

        Espero que não tenha sido doloroso para eles e que agora eles estejam em um lugar melhor. Nunca acreditei muito no inferno e nem no céu, mas tal como Gil Vicente diria… Espero que para onde quer que seja que eles tenham ido, tenha sido de “bolsão” vazio.  Ao menos se eles tivessem conosco podiam ter sido apanhados nos horrores que se seguiram…


Airsoft: Necessitam delas porque senão VAMOS TODOS MORRER!

Posted in Uncategorized on Novembro 17, 2010 by henriquedematos

Muitos maníacos pelo mundo eram capazes de darem tudo o que têm (Desde um pedaço do corpo á sua própria família) para terem uma arma de verdade. Imaginem como era, poder assaltar bancos e ficar rico em minutos, meter-se em gangues e poder matar o “chefão” sem escrúpulos apenas porque a nossa arma é maior do que a dele ou simplesmente sair por aí em busca do Bin Laden e dos seus seguidores para se vingarem do que aconteceu com o World Trade Center… Ou bom, ia ser divertido nessas primeiras 4 horas (Salvo exagero) antes da polícia apanhar o portador da arma e essa mesma pessoa levar com um belo tiro que lhe fará reflectir antes do suspiro final: ”No que é que eu me fui meter?!”.

É, defacto… Têr uma arma real não era assim tão fixe. Perdão aos tarados por armas que sempre sonharam em têr uma Desert Eagle real, mas fogo, não entendo para quê armas reais se não trazem nada mas problemas. Cada pessoa quando nasce já vem com a melhor arma do mundo- E pode ser uma frase velha e cliché, mas já desde a minha infância que o meu pai me ensinava e que eu concordo plenamente: A melhor arma que uma pessoa têm é a sua mente.

Palavras sábias, meus amigos…

E é aí onde entram as armas de airsoft. Não são reais e em vêz de dispararem balas reais apenas dispararam bolinhas laranjas, e não são feitas no sentido de serem “armas”, mas são modelos realísticos “bagarai” e realmente têm o seu nível de perigo. Ora, então assim para que é que esses modelos de armas existem? Descobriremos abaixo.

Neste momento uma pessa que não conheça armas de airsoft deve estar a perguntar-se a óbvia pergunta: Mas para que é que servem essas tais armas?

Então digo já que não são poucas as utilidades. Em primeiro lugar, podem servir apenas como mero meio colecionável. Por exemplo, se alguém um dia uma pessoa gostar de uma arma, por vêr um filme com ela, por jogar com uma em um jogo, ou simplesmente pelo valor histórico e obviamente não pode ter a arma real, estas réplicas que caracterizam a arma ao detalhe existem para isso mesmo. Imaginem só se têr uma AK-47 na parede do quarto não ia ser imponente! Qualquer pessoa que me visitase iria automaticamente considerar-me um deus e qualquer rapariga que viesse a minha casa iria ficar automaticamente apaixonada por mim!

Ou iria ficar cheia de medo, achar-me um psicopata e fujir para as montanhas na esperança de nunca se cruzar comigo de novo, mas enfim, há que se correr riscos…

Outra utilidade, a minha favorita, é simplesmente para usar. Claro, quando eu digo “usar” não digo para saír por aí a disparar com essas armas pela rua, digo algo mais pacifista: Algo como, por exemplo, montar um monte de alvos no quarto e praticar a acuracia com os BBs (As pequenas bolinhas de plástico, geralmente de 6mm ou em alguns raros casos de 9mm, incluídas com as armas para servirem de “balas” e também vendidas individualmente). Já fiz isso com alguns amigos e confiem em mim, rendeu umas ótimas horas de diversão! É sempre bom fazer alguma coisa para divertir quando se está em casa que não seja jogar Playstation ou passear pela net…

Ou um grupo de amigos pode simplesmente marcar uma batalha de tirinhos e divertir-se a disparem BBs uns contra os outros. Tal como é explicado em um clássico vídeo do Youtube, o exército é apenas um first person shooter com gráficos melhores mas só que sem nenhum ponto de spawn, ou seja: É uma b*sta. Mas com airsoft é diferente! Claro que, para ninguém se magoar em uma guerra de Airsoft, obviamente existe um vasto número de equipamento especial necessário para a brincaidera ser segura. Pesquisem um pouco no Youtube por guerras de Airsoft e verão o tão equipadas que são essas batalhas, e olhem que nunca participei de nenhuma… Mas se têm tantas coisas apenas para ser seguro, então aposto que deve ser bastante divertido!

E claro, finalmente a utilidade que eu mais gosto- Usá-las para filmes! Ao mesmo tempo que as pessoas mais se querem afastar da guerra, também mais as querem reproduzir na mídia! Então porque não fazerem os seus próprios Apocalypses Now ou Full Metal Jackets? Ou porque não uma recriação do momento final do Scarface? Ou porque não simplesmente deixar de tentar reproduzir outros filmes e inventar os seus próprios? Afinal com armas dá para misturar guerras, gangues, zombies, porrada, acção, zombies, violência…

Zombies…

Enfim, tá aí uma mão cheia de utilidades para uma arma de airsoft. Querem mais algum novo uso? Comprem e inventem!

Mas e agora com certêza vêm a tão velha pergunta: Mas as armas de Airsoft pdoerão ser consideradas um método de defesa pessoal?

Então aí depende do ponto de vista de um ninja: TUDO pode ser usado para a defesa pessoal. Tal como eu disse antes, a melhor arma de uma pessoa é a sua mente, e por exemplo… Se uma pessoa estiver atrás de um inimigo armado com uma AK-47 preste a virar-se para trás, e se a pessoa estiver apenas armada com um clipe de papel, pensem um pouco… Se em uma fracção de segundos fôr possível espetar o clipe no pescoço do inimigo até pode resultar! Claro, as probalidades de isso dar certo são mínimas… Mas bão, ao menos é algo bem pensado! Ou seja, o que eu estou a dizer é que com um pouco de imaginação, qualquer objecto pode ser usado para defesa pessoal, e obviamente que armas de airsoft não são exepção. Se uma pessoa tiver uma pontaria muito boa então ela pode conseguir cegar um bandido com um tiro no olho! E ainda pode dar um belo tiro no estômago daqueles que realmente magoam!

Ou seja: Pode servir, mas NÃO É um método de defesa pessoal. Se uma pesoa quizer uma arma de airsoft na esperança de que fique protegido, então esqueçam, uma faca de cozinha dá mais jeito. Uma arma de airsoft, mesmo não sendo propriamente um brinquedo, é apenas feita para a diversão, e não como um instrumento para fazer crimes. Pensem nisso duas vezes antes de comprarem uma arma de airsoft a pensarem que já podem ir para o Iraque matar pessoas!

Mas atenção, quando eu digo que não são um método de defesa pesssoal, não estou a dizer que não são perigosas. Um tiro mal direcionado ou um ricochete pode magoar seriamente uma pessoa. Claro que pode não ser o surficiente para impedir um bandido de roubar uma casa, mas definitvamente chega para magoar involuntariamente um amigo que não saiba brincar com essas coisas. Logo, é por isso que todo aquele equipamento das guerras de airsoft é necessário: Porque segurança vêm sempre em primeiro! O objectivo de armas de airsoft não é magoar pessoas!

Concluíndo, armas de airosft são um bom hobby para os tempos livres. Mas porque é que estou a escrever este post então? Porque já desde algum tempo que eu ando a colecionar estas “armas”, e porque também não sou o único. E pelo que eu tenho visto, aparentemente muitos rapazes da minha idade andam a intressar-se neste “desporto”, e pelos relatos que eu vi na net aparentemente quase metade deles entre os 13/17 anos têm uma arma de airsoft guardada debaixo da cama, que a mantêm-a como se fosse a sua última linha de defesa e como se não existisse uma amanhã sem elas.

Pra quê isso?

A única vêz na qual eu fui alvejado por uma arma de airsoft (Uma submetrelhadora inspirada em uma Uzi que eu comprei em Los Angeles, igualzinha a essa ao lado) foi por um mero erro meu, após eu ver que a arma não estava a disparar e encostei-a de frente á minha mão para ver se tinha algum BB encravado no cano enquanto eu acidentalmente carreguei no gatilho- Enfim, já devem supôr o que aconteceu- e devo dizer que o tiro que levei na mão foi uma “dorzinha” que não pode ser descrita sem uns bons palavrões, mas mesmo assim é algo que eu aposto que não me iria salvar de nada. Já disse acima e volto a repetir: Armas de airsoft não são feitas como meio de defesa pessoal!

Claro, podem não ser “brinquedos” propriamente ditos, mas a verdade é que armas de airsoft servem apenas como um meio de diversão. E perdoem-me pelas palavras, mas quem acha que pode se tornar um bandido com uma arma de airsoft é realmente um idiota. Atenção, não estou a dizer que quem considera as armas de airsoft perigosas ou é contra elas é um idiota (Senão assim estaria a ofender injustamente metade da minha família), simplesmente digo que quem as considera poderosas o surficiente para salvarem a sua própria pele realmente devia parar um pouco e pensar duas vezes quanto á sua arma de airsoft.

Atenção, eu não estou a dizer “ARMAS DE AIRSOFT SÃO MEROS BRINQUEDOS E NÃO FAZEM MAL, COMPREM E DISPAREM CONTRA OS VOSSOS AMIGOS Á VONTADE”, pois também já vi tantos maus usos para armas de airsoft que nem sei se prefiro os que acham-as a coisa mais poderosa do mundo ou os que simplesmente não sabem o poder destas coisas. Coisas idiotas desde praticar tiro ao alvo com cães- Sendo os cães literalmente o alvo- Até exprimentar a mistura de um isqueiro com as que disparam com gás estão espalhadas pela internet, e sempre que eu apanho alguma coisa dessas no Youtube e vejo os comentários a dizerem “LOL u r awusom” fico com vontade de ir ter com as pessoas que considerem as armas de airsoft como armas reais e dizer como as entendo.

Logo, concluíndo: Querem colecionar armas de airsoft? Boa, vão em frente! Mas pensem duas vezes antes de as aplicarem. É apenas um aviso ao muitos dos patetas que eu vi espalhados pela mídia!

Gangs Of London (PSP)

Posted in Jogos on Julho 12, 2010 by henriquedematos

Gangs of london

Antes de mais nada, quero dizer que só foi este ano que comecei a jogar Grand Theft Auto (Na qual o meu post anterior foi dedicado). Claro, eu adoro jogos de free roaming e parece extremamente tentador saír por ai a roubar carros e aviões para atirar contra as pessoas, mas mesmo assim antes nunca tinha tido lá muito intresse por isso. E agora alguém pergunta “Ó Henrique, porque é que raios estás a falar de Grand Theft Auto se pelo título do post trata-se de um jogo completamente diferente?

Porque todos dizem que Gangs Of London, um jogo exclusivo para a PSP, é uma cópia descarada do Grand Theft Auto. E mais, caso alguém se pergunte, eu já tinha o Gangs of London ANTES de possuír qualquer GTA- Aliás, muito antes, visto que só este ano, nesses últimos 2 ou 3 meses é que começei a jogar GTA e o Gangs of London eu já tinha desde o fim de 2008.

Prosseguiremos então!

A história do jogo decorre no submundo criminal Londrino, relatando que Londres ficou divido em seis áreas diferentes (Não se preocupem, no modo Free Roaming que vou falar mais á frente é possível jogá-las todas como uma só) e cada uma delas está em controlo de seis violentos gangues:

A firma Morris Kane, que são os “velhos mafiosos” agressivos, porém organizados… Tipo The Godfather.

A organização Zakharov, um bando de russos que andam com carros blindados pelas ruas de Londres.

A Traíde Dragão de Água, Chineses provavelmente importadores de fakeformers que infelizmente não lutam com artes marciais, ao contrário do que possa soar.

A equipa EC2, os gajos “gangstas” afro-americanos que ficam o tempo todo a “rapar” e a dizer asneiras mais do que qualquer outro gang no jogo- O que não é facil.

Os irmãos Talwar, típico gang de rua xunga e barulhento que todos nós temos no nosso bairro, com a única diferença que aqui ao menos esse bando de xungas consegue algo da vida além de drogas e tabaco…

A assosiação Andy Steele, que é o unico gang não-jogável e não tem nada de especial além de carros e uniformes fixes.

Cada gang tem a sua personalidade distinta, as suas armas e os seus diferentes veículos. É irresistível chegar a refazer o jogo sem pelo menos fazer o modo história com todos os gangues. As misões dos gangues são, no geral, intressantes, mas mesmo assim um pouco repetitivas. Basicamente consistem em destruír carros inimigos, atacar lugares, defender membros dos gangues e matar líderes dos gangues inimigos.

O jogo perde MUITO na jogabilidade. Basicamente consiste em andar e disparar, sem menhum controle avançado e sem sequer o botão de salto. Sim, um jogo sem o botão de salto! Que $%#&@ é isso?

Claro, quando se controla diversos membros do gangue ao mesmo tempo é intressante, mas no geral não deixa de ser aborrecente. Aliás, o jogador pode apenas ter uma arma fixa sem poder mudar de armamento, o que fará estar constantemente a alternar de membro do gangue nas missões.

No freeplay o jogador pode saír por aí com um carro a atroplear pessoas pela rua, a roubar carros ou a procurar placas escondidas pela cidade (Necessárias pra completar o jogo a 100%). Infelizmente não são muitos os veículos que o jogador pode usar no freeplay, não existindo certos veículos do modo história. Verdade seja dita, é pena veículos que podemos roubar por tempinho limitado em certas missões como a ambulância, a carrinha blindada da primeira missão ou o camião de bombeiros não estarem disponíveis para o jogador poder desfrutá-los enquanto passeia por Londres. Aliás, agora que refiro os veículos, importante será avisar que só existem carros e camionetas (E também uma carrinha… Do lixo. Ieca.), ou seja, nada de motas, barcos, helicópetros ou aviões, o que realmente é chato.

O  jogador pode escolher no freeplay a sua arma, o seu personagem e o seu veiculo inicial… O que, mesmo que posso soar bom, não retira do jogo a chatice principal de que, no modo de free roaming, sempre que se bater num carro da polícia, disparar para um ou matar pessoas feito um psicopata, excusado será dizer que a polícia de Londres vêm atrás do jogador…  Só que, ao contrário do GTA onde o jogador pode livrar-se dos polícias de diversas maneiras, aqui eles presseguem o jogador até á morte, e não irão descansar enquanto não estiver morto. Claro que o jogador pode despistar os polícias se conseguir um carro super rápido, mas logo um pouco mais á frente deles volta a aparecer outro carro da Polícia que presegue o jogador de novo! E mesmo que o jogador acabe com os polícias, continuarão a aparecer mais e mais até estourar o limite de spawn de veículos naquela secção do mapa…  E voltarem a aparecer, se o jogador andar mais um pouco. Ou seja, pelo que eu fiz agora soar o modo de passeio livre é totalmente ridículo e desnecessário, certo? Nada disso! O intressante desse modo é que reproduz Londres AO DETALHE exacto, com todas as ruas, estradas e becos na localização correcta. Claro, não com todo o detalhe com cada loja, semáfero e tampa de esgoto no local correctinho, mas quem já tenha estado em Londres (E falo por expriência pessoal, mais do que quatro vezes… Aliás, acho que já perdi a conta se foram cinco ou seis) provavelmente reconhecerá os lugares sem problemas. E claro, os monumentos mais importantes como o Big Ben, o London Eye, a London Brige e a torre de Londres (Embora não acessível devido ás muralhas, mas ainda existente), o planetário e muitos outros estão presentes no jogo, tanto como existem missões bónus dedicadas especificamente a passear por Londres e fotografar esses lugares.

E só a habilidade de explorar londres ao detalhe por si já compensa todos os outros erros grotescos.

Com certêza, também existem as missões extras de taxistas, polícia, algumas ao estilo Rampage simplesmente para quem gosta de causar pânico e até uma mini-storyline com umas 10 missões de caça zombies! E também existem missões ao estilo de salão, com snooker, bowling e arcade, que realmente dão um toque intressante ao jogo.

Aliás, intressante ver que ao contrário do GTA onde o jogador carrega o jogo e depois vai indo para os diveros lugares do mapa para efectuar as missões e sub-missões bónus, aqui o jogador carrega o jogo e em vêz de ter que andar meia-hora por Londres de ponto em ponto para efectuar missões (E confiem em mim, o mapa de Londres é tão brutalmente grande que pode chegar a levar verdadeiramente meia-hora para ir de uma ponta á outra) aqui o modo de “free-play”, as missões da história e as sub-missões estão separadas por categorias no menú principal, o que por si disfarça afasta mais do rotulamento de ser considerado uma cópia de Grand Theft Auto. E finalmente (O que normalmente customa vir primeiro, mas com tanta coisa pra falar acabou por ficar em último) os gráficos são bastante aceitáveis para um típico jogo de PSP, muito melhores do que bastante outras porcarias por aí nas lojas. Ainda será intressante falar que infelizmente os carros não têem rádio, o que é pena. Tudo o que se houve durante o jogo é a musica tema de cada gang… Que verdade seja dita, não é nada má, encaixando-se perfeitamente no ambiente do jogo.

Os carros também são bem trabalhados, embora os danos não sejam tão bem trabalhados como em certos jogos de carros. O jogo simplesmente programa pra se irem estragando quanto mais se batem, significando que o dano é basicamente extrior em qualquer parte do carro, podendo acontecer coisas como bater de frente com o carro, ficar tudo intacto e perfeitinho á frente e atrás o vidro racha.

Sim, estúpido… Mas mais uma vêz, não é nada de assim tão grave. Em menhum momento o jogador vai querer motivo para estragar os seus carros, visto que na maioria têm uma aparência tão intressante que chega a dar pena bater com eles ou abandoná-los na rua.

Gangs of London… Bem, agora que eu analizei, defacto tem muitos erros grotescos. Mas na época em que o recebi, precisamente em Londres lá por 2008, eu já me divertia com ele, e hoje ainda ainda me divirto bastante com este jogo. O jogo até tem sido bem aceite por compradores em sites de vendas de jogos, porém na época em que saíu chegou a receber algumas análises fraquinhas. Com certêza, para uma pessoa que esteja habituada com a centena de veículos diferentes do GTA e que não sinta menhum “carinho especial” pela 2ª melhor cidade do mundo (Apenas perdendo por pouquíssimo- Quase empatando- Com Los Angeles) deverá considerar este jogo uma porcaria massiva. Por outro lado, pra quem já tiver estado por Londres ou simplesmente queira conhecer melhor esta bela cidade têm aqui um exelente jogo á espera. Vou admitir, tem fortes defeitos. A verdadeira nota que merecia se não tivesse nada  a haver com Londres era um 6 á rasquinha- E ainda ia com muita sorte- Mas pelas memórias que me traz e pela felicidade de poder ficar a conhecer as ruas por onde eu ando da próxima vêz que for a Londres, nada é mais merecido que…

NOTA FINAL: 8/10

Um oito MUITO fraquinho, quase que eu estive para dar um 7… Mas escapou!

Grand Theft Auto é violência (Quase) gratuita que transforma as pessoas em Serial Killers?

Posted in Jogos on Junho 13, 2010 by henriquedematos

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Star Wars In Concert

Posted in Star Wars, Televisão e cinema on Março 23, 2010 by henriquedematos

Isto tem estado parado, defacto…

Meh, voltando á vida normal, acabei agorinha de vir do Pavilhão Atlântico- E advinhem o que eu fui ver? O título diz tudo: Star Wars In Concert! O tão esperado espetáculo que foi exbido hoje (22 de Março) aqui em Portugal e também será exbido amanhã (23 de Março). Para não ficar 100%  parado o blog, decidi fazer uma pequena análise ao concerto.

E qual é a minha opinião após esperar quase um mês para ver este espetáculo? Resume-se em uma palavra inglesa: Awesome!

Eu podia simplesmente terminar esta análise neste  parágrafo, dizendo apenas “É espetacular, vão ver e pronto!”, mas como embora eu bem tenha dito que seria apenas uma pequena análise, acho que após tanto tempo desapareçido os 2 ou 3 gajos que ainda teêm pachorra para visitar o blog para ver se já apareceram posts novos com certêza merecem mais do que isto. Então, fazendo uma análise um pouco mais profunda ao espetáculo, iremos primeiro analizar a esturtura geral do concerto.

O espetáculo, com 60 e tal membros da orquestra original de Jonh Williams é apresentado por Antonhy Daniels, a voz do carismático e exbicionista C3PO. Antonhy, entre cada música que é tocada descreve as diversas fases da saga, referindo em ordem cronológica da história dos filmes a vida de Anakin, desde a época em que ele era um pequeno escravo- Digo, ser humano em Tatooine até á época em que ele derrota o Imperador, furioso por torturar o seu filho e sacrificando a sua própria vida para acabar com o império que ele mesmo começou

Claro que enquanto a banda toca, atrás passam diversas cenas dos filmes (Algumas inclusive com diálogos) a demonstrar como o puto que trabalhava na loja de ferro velho se tornou o Lord Vader que todos conheçemos. A disposição da história, embora um pouco confusa, ficou no geral bastante bem colocada.

O concerto está dividido em duas partes: A primeira com a história de Anakin desde o Phantom Menace, com o seu encontro com Qui Gon Jim, a sua paixão pela Padmé e a espetacular luta em Mustafar até á sua resureição como Darth Vader- E depois uma breve pausa de 20 minutos para recuperar o fôlego de tão espetacular que foi este breve início.

Sem estar satisfeito com os primeiros momentos de emoção que serviram apenas de um mero engate comparado á segunda parte, depois do intrevalo é que a acção realmente começa. Os “efeitos especias” aumentam, com lazers por todo o lado e holofotes coloridos. O mega-ecrã por detrás da orquestra soa ainda mais fabuloso e é nesse momento que o público é fisgado por toda a saga. A emoção aumenta a cada música que passa, e a emoçionante narração de Anthony Daniels entre as músicas só fazem o público entrar cada vêz mais na emoção, no ritmo acelarado e ao mesmo tempo perfeito do espetáculo.

O final foi perfeito. Com a marcha imperial como desfeche e posso jurar que quando o público bateu palmas foram as mais longas que já ouvi na minha vida. Não cronometei, mas acho que a maioria, tal como eu, só pararam quando as mãos já estavam tortas, deformadas e a sangrar.

Star Wars: In Concert é mais do que um simples espetáculo. É mais do que ficar sentado feito pateta a ouvir música a tocar, é uma expriência única. Mal se entra na sala, passa-se a envolver-se no universo em si. O público viaja até há muito tempo atrás, para uma galáxia muito distante. Logo a emoção que o espetáculo traz para o público é imediatamente fabulosa!


Se ainda não foram ver e ainda consideram-se fãns de Star Wars, aconselho imediatamente, não importa em que lugar do mundo estejam, a correr para onde quer que seja o espetáculo mais próximo. E claro que, para melhorar ainda mais a expriência do espetáculo, tudo isto incluí uma pequena exposição com os fatos e objectos utilizados originalmente no filme e ainda uma lojinha de merchandise- Aconselho a passarem por lá, com algum dinheiro deu para levar uma T-Shirt, um livro sobre o concerto e ainda um sabre de luz keychain!

Então, abraços e fiquem bem!

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